sábado, 2 de junho de 2012

Pirigulino Babilake era o cara do farol?

Por Ana Paula Marques e Rafael Flores



Foto: Rafael Flores
Estava tudo muito baiano na última noite de quinta-feira, mais um vez preenchida por uma Noite Fora do Eixo. Achiles Neto com sua belíssima voz e com sua banda muito bem conectada brilharam no palco do Viela-Sebo Café com muito tempero do sertão baiano. Pirigulino Babilake foi a atração "de fora" da noite, os soteropolitanos juntaram as referências sertanejas, já jogadas no palco por Achiles, com os ventos suingados do litoral. As duas atrações tiraram todo fôlego, suor e voz do público desenhando uma bonita noite.


Esperamos até o fim da noite, para conversar com Pietro Leal, vocalista da banda Pirigulino Babilake, a  qual tem aproximadamente sete anos de carreira. Com um álbum autoral, intitulado “Rosa Fubá”, gravado há um pouco mais de dois anos, a banda cativa o público conquistense cada vez que toca na cidade. “A gente desenterra todas as blusas de frio do guarda-roupa pra vim pra Conquista”, brincou Pietro de cima do palco, mostrando o quanto eles se sentem à vontade com o público, o qual sempre lota o Viela Sebo-Café quando a banda passa por aqui.


Pietro, que já não estava de blusa de frio devido ao calor que o público provocou, falou sobre o novo álbum da banda, "Quarto Crescente", o qual está em processo de gravação e contou também curiosidades sobre a relação da banda com o eterno poeta e novo baiano Luiz Galvão e com as outras bandas do cenário  independente de Salvador. 


O Rebucetê: Cada vez que vocês retornam à Vitória da Conquista o público cresce e renova. Conta pra gente como foi esse processo de formação de público aqui em Conquista.



Foto: Ana Paula Marques
Pietro Leal: No primeiro momento quando a gente chegou aqui já foi uma surpresa muito grande, pois a gente chegou sem ter muita informação sobre o público daqui e já tinha gente cantando música nossa. Sendo que em Salvador foi mais difícil pra gente conseguir que as pessoas assimilassem nosso repertório autoral. Em Salvador, a gente começou fazendo releituras dos Novos Baianos, de Caetano e tudo mais e o povo conhecia mais as releituras do que as nossas músicas e aí quando a gente chegou aqui foi estranho, porque as releituras ninguém ligava muito e quando tocávamos as nossas músicas todo mundo gostava.


Hoje a gente teve esse exemplo mais forte ainda, preparamos o repertório antes do show e fizemos um repertório só de músicas nossas. Esse processo veio basicamente com a ajuda da internet, pois como não tínhamos presença física aqui, as pessoas tinham acesso às músicas da gente pelo site e principalmente ao trabalho autoral nosso, que são as músicas do disco “Rosa Fubá”. Essa construção foi feita também através desses shows, a internet é massa, faz tudo, mas se você não tiver a presença, das pessoas olharem pra sua cara e mostrar que o show é um produto totalmente diferente do cd né? A gente tá trazendo suor e energia que é uma coisa em que prezamos muito. É uma coisa completamente diferente da energia de fazer o show. Vitória da Conquista é o lugar que a gente mais tocou depois de Salvador.



OR: A cena independente baiana está tomando um corpo cada vez mais forte e denso de composições próprias. Você poderia falar um pouquinho do processo de redes e da relação de vocês com as outras bandas de Salvador?



PL: Sempre que a gente pode a gente se reúne, não somente por causa das músicas, mas porque a gente teve sorte de encontrar pessoas que a gente gosta e que criamos um laço de amizade. Só que acima disso a gente tem uma coisa que é diferente de outras cenas de música na Bahia, que é prezar pela qualidade do que tá fazendo, cuidado com o que tá dizendo, cuidado com as letras, com as melodias. Eu converso com os meninos da Maglore mesmo porque as vezes as pessoas perguntam “porra, que massa vocês fizeram uma estratégia muito bacana, esse sistema de circulação, esse sistema de sair fazendo Fora do Eixo, fazendo não sei o quê”. Enfim, mas o que acontece é que existem zilhões de bandas fazendo isso o tempo todo em todos os cantos, sabe? Então não é bem uma estratégia. A gente tem noção também que a gente tá se esforçando pra fazer um trabalho com qualidade, né? E de se prezar em fazer um trabalho de qualidade e de buscar esse retorno. Não é só fazer a música pela música, a gente quer fazer bonito, ter energia, verdade.


Foto: Rafael Flores
A gente não faz música pra dar certo. A música que a gente faz é porque sabemos fazer desse jeito. Velho, as pessoas tem um certo preconceito com o que dá certo, com essa coisa do pop, essa coisa do popular e eu falo pra Teago (vocalista da Maglore): “velho você é um abençoado, porque você faz suas músicas, suas músicas são deliciosas e é o que você sabe fazer”. Não é porque o mercado tá dizendo que essa música funciona e dá certo. Então, uma característica dessas bandas que eu percebo é que tem muita verdade naquilo que é feito. Não tem essa lógica do sucesso. O sucesso vem mais disso aí. São pessoas boas, são amigos que gostam de estar juntos.

OR: Vocês estão em processo de gravação do novo disco, o “Quarto Crescente”. Como está sendo e qual é o motivo desse nome?

PL: Bom, tá sendo uma experiência fabulosa, porque o primeiro disco é sempre aquele filho que você não sabe como vai nascer ou como é que você vai cuidar. O primeiro disco da gente foi um disco muito mimado, durou quase dois anos para sair e tem 19 faixas. O povo fala “velho, porque vocês não lançaram um disco duplo?”. E dessa vez a gente quis fazer um disco mais curto. 




O “Quarto Crescente” abriu uma teia de ideias pra gente que foi a relação com própria lua, com a influência dela no comportamento das pessoas. Então, a gente tá preparando um disco que traz um pouco dessa reflexão de uma forma indireta e metafórica e a gente tá criando um show com o mesmo nome, que inclusive já apresentamos em Salvador no Teatro Vila Velha. É um show que tem vários aspectos além da música. Tem a iluminação, o cenário... é um show que divide o repertório entre as fases da lua. A gente começa na lua nova, passa pela lua crescente, chega no quarto crescente, onde a gente apresenta as coisas novas e finaliza com a cheia. E cadê a lua minguante? Nossa lua não míngua, nossa lua acaba na cheia, chega na cheia, vai pra nova e sobe de novo. 


Então é uma experiência mais gostosa, a gente tá conseguindo visualizar o disco inteiro. E tivemos essa oportunidade de apresentar aqui. Nós apresentamos quatro músicas do novo disco, inclusive teve uma música que a gente tocou aí que se chama “Planeta Não” que não havíamos tocado em lugar nenhum do universo e a gente resolveu tocar aqui porque a gente se sente muito a vontade sempre.

OR: O nome "Pirigulino Babilake" era o apelido de Luiz Galvão, que integrava o Novos Baianos junto a Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Paulinho Boca e muitos outros malucos. A banda de punk rock hardcore soteropolitana Inkoma, formada nos anos 90, também já homenageou o cara colocando este apelido como título de uma música.  Como foi que esse nome surgiu exatamente?


PL: Engraçado que geralmente nas entrevistas a primeira pergunta é o porque do nome e a gente sempre ficou assim meio preocupado de como explicar, porque é uma história muito longa, mas é uma história verdadeira. A ideia do nome “Pirigulino Babilake” não tinha a  ver com Galvão, tinha a ver só com a sonoridade do nome: Pirigulino, que soava como Virgulino, como pirilampo, uma coisa assim do Nordeste, que não tem nada a ver com a música do Inkoma. 




Um certo dia um amigo me chamou assim: “Fala, Pirigulino” e eu falei “Como é que é?”. “Pirigulino, Pirigulino Babilake, o cara do farol” e começou a me sacanear. Dias depois ele me trouxe um disco que tinha essa música, né, aí eu ouvi e pensei “Rapaz... é muita loucura”, não tinha muito haver com o que a gente estava pretendo no primeiro momento da banda, a gente tava numa onda mais lúdica.


OR: Vocês tem uma relação muito forte com o som dos Novos Baianos e o Luiz Galvão acabou se tornando seu parceiro em composições. Como se deu esse processo de aproximação?


Uma amiga minha encontrou Galvão e me ligou dizendo que falou pra ele da nossa banda e que ele queria nos conhecer. Aí eu falei “Pelo amor de Deus, marque esse encontro já!” Isso, tipo, a gente vai fazer sete anos de banda agora e no primeiro ano já aconteceu essa sequência. A gente foi parar na casa de Galvão, aí perguntei pra ele da música, porque eu descobri que ela não tem um autor definido, é de um autor desconhecido. Aí ele me falou “Não, rapaz, essa música aí foi um hippie maluco que fez nos anos 80 e que a Pitty gravou com o Inkoma depois”. O guitarrista de Pitty na época era Peu Souza , enteado de Galvão, filho da mulher dele. Então eu achei interessante esse negócio de Pirigulino, mas ele não gostava muito porque a música era muito escrota, era muito esculhambada, ele não se reconhecia na música. 

Então, ele queria ouvir o som da gente, aí eu mostrei algumas músicas e poesias e ele ficou atento, meio que desconfiado, porque não tinha nada a ver com o Pirigulino Babilake da música, né? A gente trocou telefone e depois de algum tempo ele me ligou de madrugada e disse “Pietro, fiz uma letra pra você, queria que você fizesse uma música pra essa letra” e eu fiquei paralisado assim. Galvão é um cara que tem 75 anos. E é um cara que viveu numa época louquíssima. A gente é careta, muito careta, com a cabeça fechada, não sabe de nada, os caras que eram muito loucos! E hoje ele é um cara totalmente lúcido, isso me impressionou bastante. 


OR: Só uma curiosidade, essa primeira letra de Galvão que vocês musicaram foi "Feliz foi Ary Barroso"?

PL:  Sim, ele me disse “Eu quero que vocês gravem essa música e saiam gritando por aí”. E todo lugar que eu chego, numa rádio assim, as pessoas pedem “Ah, mostre uma música de vocês que a gente quer ouvir”, aí eu peço pra botar "Feliz foi Ary Barroso". Uma vez fomos inclusive numa rádio lá em Salvador, que é a rádio do Chiclete com Banana que tipo, nenhuma banda alternativa entrava, mas a galera chamou a gente pra ir lá, aí quando eu botei, os caras ficaram olhando assim né “Ahhh, vocês são espertinhos” (risos).


OR: Vocês compõem juntos frequentemente?


Foto: Rafael Flores
Sim, a gente compõe frequentemente, eu faço questão de visitar a casa de Galvão e passar horas ouvindo as histórias dele. Depois que veio a relação com a musicalidade dos Novos Baianos. A gente foi meio que levado a ser Novos Baianos, até porque antes de conhecer Galvão e tudo mais, muita gente falava assim “Pô, seu som é muito Novos Baianos” e a gente não sabia nada, só conhecia “Preta Pretinha”, “A menina dança”, coisas que todo mundo conhecia. Aí eu comecei a conhecer mais a história do grupo e ouvir a história do próprio Galvão, que é o trovador das histórias dos Novos Baianos, né? O cara fez todas as letras e sabe a história de todas as letras, todas tem nuances que só Galvão contando. A gente toca Novos Baianos como se fosse nosso. Falo pra ele, “Velho é brutal, eu toco Mistério do Planeta como se fosse autoral, eu não toco falando que tô tocando cover não”. Eu tô tocando aquilo porque faz parte da minha verdade.

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