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domingo, 9 de dezembro de 2012

[#FSB2012] Cone Mico

Em sua passagem por Vitória da Conquista, no Festival Suíça Bahiana 2012, o grupo de Rap Cone Crew Diretoria foi o pesadelo que toda produção local gostaria de evitar, mas me proporcionaram a pauta do sonho de qualquer jornalista cultural iniciante.

Por Lucas Oliveira Dantas
Apresentação fria e irresponsável do grupo Cone Crew Diretoria/ Foto: Coletivo Suíça Bahiana

Em espasmos barulhentos, Batoré da Cone Crew Diretoria, pegou o jovem repórter do site local, o agarrou à força fingindo um beijo; tentando manter os ânimos com sarcasmo, o garoto exigiu respeito. Você precisa de autorização para tocar nessa boca aqui, meu querido. E, conseguindo a reação que esperava para sua performance offstage, Batoré continuou a piada, pegou o garoto – que naquele instante se lembrou que estava sendo filmado desde o princípio –, levantou sua blusa exibindo-o para a câmera, enquanto parte das pessoas riam da performance Jackass e outras observavam chocadas. O repórter abaixou a própria blusa e, percebendo que o showzinho ia além da empolgação inconsequente  e vendo que não conseguiria a entrevista pela qual estava ali, saiu esbravejando contra a banda, equipe, câmeras e sabe-se mais lá o quê.

Show frio

Antes e após um show controverso – em que as falhas de comunicação (para dizer o mínimo) aconteceram entre banda e plateia, produções e, no meio de tudo, a MTV – a banda não só causou um verdadeiro rebucetê nos bastidores do festival, como com o próprio O Rebucetê.

Frio e, na maior parte, unilateral, o show discorreu de forma totalmente oposta aos shows anteriores. A interação com o público era esparsa, com Cone Crew se direcionando na usual marra prepotente dos rappers, mas com o carisma de uma ervilha crua que faria Eminem (que não é conhecido por sua simpatia) sentar e chorar. Ou bocejar.

Com rimas/piadas homofóbicas e um arriscado discurso autoindulgente, a banda chegou a ser vaiada em alguns momentos e, mesmo mantendo alguns fãs e admiradores de rap acompanhando até o fim, maior parte da plateia esvaziou a Arena Miraflores poucos minutos de iniciado o show.

Acontece que o show mesmo estava acontecendo nos bastidores e a partir daqui o relato toma um cunho mais pessoal.

Enquanto editor da cobertura d’O Rebucetê, eu ficava alternando entre a sala de imprensa, monitorando as postagens; a pista, auxiliando os repórteres e fotógrafos, e o backstage pré-produzindo as futuras entrevistas e tirando eventuais instagrams do palco.

Mas, se o acesso para a imprensa local vinha sendo livre até então, com Cone Crew Diretoria, segundo o produtor deles, “aqui só MTV”. Eu achei graça, pois já consegui minhas fotos e de quebra um furo! Sim, um furinho de meia tigela, mas pense o quanto poderíamos reclamar no Twitter! kekeke...

Aliás, reclamar era o consenso geral da produção do Festival quando se mencionava Cone Crew. Logo quando chegamos, antes de tudo começar, uma das produtoras nos disse que os caras estavam para ser expulsos do hotel devido a baderna. Óbvio que adorei saber disso! Os burburinhos, inclusive, davam conta de que eles emporcalharam o camarim, tendo até mijado em cima da mesa.

Mas, depois de ser limado a favor da MTV, desci até os camarins para afinar a entrevista de mais tarde e, ao encontrar as colegas Luiza Audaz e Maria Eduarda, contava sobre a exclusividade mtvística, quando me aparece o produtor executivo do grupo.

"Coração involuntário"
obra de Cone Crew Diretoria*
Colei nele para saber da nossa pauta e, de repente, estava no camarim com ele. Sim, os rumores eram fatos, mesmo que até agora ninguém tenha comprovado que o coração involuntário (foto) em cima da mesa era mesmo feito de mijo. E mesmo após o produtor desdenhar da minha cara – “tamo fugindo de imprensa” – continuei rindo à toa sem saber porque… mentira, sabia sim: tinha conseguido comprovar o furo do camarim.

Só que o negócio começou a pegar fogo quando Luiza – que faria as vezes de repórter naquela noite –, tentando salvar a pauta planejada, iniciou um sobe-desce de escadas em conversas acaloradíssimas (sim, isso é um eufemismo) com o tal produtor.

E então, conforme o chacoalhar da vodca começava a revelar os monstros de todos, uma verdadeira confusão se instalou entre Cone Crew Diretoria e O Rebucetê, indignado com a postura pedante da banda e equipe (on e off stage).

Consegui salvar a pauta, mas minha repórter estava puta da vida, subiu nas tamancas dizendo que não ia fazer mais entrevista nenhuma! E eu parti de argumentos sensatos:

“Cara, você que estudou a porra da pauta!”

…Para a pose de chefia:

“A entrevista vai acontecer e pronto! E é você quem vai fazer!”

Até ao ponto que eu mesmo anotei as perguntas elaboradas por Luiza e parti para os bastidores em busca de cumprir a pauta.

Estava pouco me fodendo para o pernosticismo da banda e equipe. Ao passo que eu queria realmente concluir a parada, meu espírito jornalístico se arrepiava apenas com a áurea eletrizante da situação. Aquilo ia dar em muita coisa e é óbvio que eu queria ver tudo!

Instalação: TRASH-EZA
obra de Cone Crew Diretoria*

O comportamento do Cone Crew Diretoria e equipe no camarim foi TE-NE-BRO-SO! Sob o mais estúpido estereótipo de rock stars, eles faziam algazarra, sujavam coisas, jogavam gelo e comida uns nos outros, tiravam a roupa. Tudo isso deliberadamente para as câmeras da MTV, claro.

Enquanto os Bernadino e Purki, fotógrafo responsável pela pauta, olhavam tudo com desconfiança e seriedade, eu continuava rindo de tudo. Era bom demais pra ser verdade! Meu estágio pessoal de Rolling Stone, acompanhando um momento da turnê de uma banda que despontava no cenário nacional. Não vou mentir que, só de pensar naquelas câmeras da MTV fico arrepiado… um misto ridículo de vergonha e fogo no rabo.

Luiza discutia com os produtores, que começavam a mudar o discurso de "nada de entrevistas" para "entrevista só no hotel". Vocês só vão sentir o que é Cone Crew de verdade se forem com a gente pro hotel. Porra nenhuma, eles queriam mesmo era sentir Luiza, mas eu não me oporia se ela e Purki quisessem ir.

Olhando atentamente para as caras de todos, me perguntava o quanto e desde quando aqueles caras estavam enchendo a cara. De álcool e seja mais lá o que você quiser imaginar. Era óbvio para mim, naquele momento, que a pauta não daria em entrevista alguma, mas era necessário estar ali! Propósitos jornalísticos, um sentimento que (entendi naquele momento) era muito complicado de explicar.

Quando Batoré subiu minha camiseta, fiquei excitado! Mas não porque aquele energúmeno, pseudo músico, celebridade de MTV me ridicularizava em frente à câmera, mas exatamente porque eu só pensava na pauta! E não existia nada melhor para mim do que a forma com a qual Cone Crew tratava a mim e a’O Rebucetê… e Conquista!

Enquanto meus amigos e colegas se chocavam, eu juro: só não me sentia como Nicole Kidman em “Um Sonho sem Limites” por que cometi a burrice de não ligar a câmera desde o princípio.

O ponto alto foi quando, Rany Money, um dos membros mais tranquilos daquela trupe de gente mal educada, virou para mim e disse: “mas você tem que entender como é que você aborda o cara. Você tem jeito de homem, mas se você se comporta como mulher, os caras vão te tratar como mulher!”

Quer dizer, tirar minha roupa sem meu consentimento para a câmera! Quem precisa de entrevista?!

*Fotos por Lucas Oliveira Dantas. Sim, as legendas são ironias.

sábado, 8 de dezembro de 2012

[#FSB2012] Respeita os loco de Conquista

A primeira noite do Festival Suíça Bahiana - #FSB2012 foi marcada por um ótimo desempenho das bandas locais e uma Cone Crew Diretoria que deixou a desejar.

Por Mariana Kaoos e Maria Eduarda Carvalho

Complexo Ragga/ Foto: Luiza Audaz

Tendo chegado à sua terceira edição, o Festival Suiça Bahiana, que esse ano ocorre na Arena Miraflores, apostou em um misto de atrações locais com grupos de fora. Quem compôs a noite de sexta feira foi o sambista Achiles Neto, seguido pelo grupo soteropolitano de pop rock Scambo, os regueiros do Diamba, Complexo Ragga e o grupo de rap carioca Cone Crew Diretoria.

De acordo com o produtor cultural do evento, Gilmar Dantas, “o critério de escolha das atrações foi de acordo com o que, de fato, está em evidência na cena cultural da cidade e do país. Um retrato do que é a cena nacional. O rock perdeu espaço e por isso não foi nosso foco esse ano. Resolvemos dar vazão para os estilos que têm potencial inovador como o hip hop e o ragga”.

Achiles Neto ainda passava o som quando os portões foram abertos para o público, por volta das 21h. As cervejas (a um preço de R$3,00 a lata) e as comidas (salgados, pizzas e espetinhos) já estavam no ponto, só não a produção do festival, que pareceu meio dispersa com essa questão de horários, mal informando ao público que o primeiro show ainda não havia começado.

Achiles Neto/ Foto: Henrique de Eça
Sanado esse problema, Achiles e sua banda abriram a noite com chave de ouro. Com músicas autorais e fazendo referência a grandes artistas como João Bosco, Gonzaguinha e Dorival Caymmi, o cantor emocionou as pessoas presentes, como também as fez tirar o pé do chão. A qualidade e concretude do seu trabalho é visível através de músicas como “Cocoa”, “João do BNH” e “Dafé”. Ele, sem dúvidas foi uma das melhores surpresas da noite.

Logo após sua apresentação, foi a vez de Scambo subir ao palco. Podia-se notar grande contingente de fãs, que ocuparam toda a frente do espaço dançando e pulando ao som de músicas autorais da banda, como “A Carne dos Deuses” e “Janela”, e conhecidos covers como “Muito Romântico”, de Caetano Veloso.

Pedro Pondé, vocalista da Scambo, com sua interpretação visceral, arrepiou a todos com “Carcará”, composição de João do Vale e Zé Keti. Em entrevista exclusiva para O Rebucetê, em agosto desse ano, Pedro explicou de onde vem a sua ótima performance no palco. “Minha formação é de teatro e até hoje eu encaro a música como teatro, até pra compor, pra cantar, e isso tá muito impregnado. Eu me sinto mais ator até do que cantor, eu acho que sou um ator cantando e não um cantor atuando”.

Diamba foi a terceira banda a tocar na noite. Muito energético, o vocalista Duda Sepúlveda balançava orgulhosamente seus dreads, cantando seu reggae com letras de conscientização e, como o próprio Duda define, “de mensagem que faz vibrar positivamente”. A banda fez um show em sua maior parte autoral, tocando canções do quarto álbum de estúdio, “Fraternidade Musical”, além de covers internacionais.

Entre meia noite e uma hora da manhã, os meninos do Complexo Ragga chegaram com tudo, incendiando a pista, colocando todo mundo para se remexer. Ao longo desse ano, o grupo vem ocupando todos os espaços da cidade, que vão desde a grandes festivais como o Festival da Juventude, às ditas “periferias”.

Supremo MC, JG Black e o Loroo Voodo, fizeram um show focando na essência dos mesmos, abordando em suas músicas fatos do cotidiano de cada um. “Sensimilla” e “Poder da Palavra” foram alguns dos hits que eles tocaram. Decididamente, o Complexo foi o melhor da noite, pela qualidade do som e pela humildade e boa energia com que eles levaram toda a apresentação.

Encerrando a noite, a atração mais esperada, Cone Crew Diretoria subiu ao palco e surpreendeu. Infelizmente a surpresa foi negativa, “os muleque” chamaram mais atenção pelas pérolas soltadas no palco do que pela música em si. O discurso que incluía ofensas a música sertaneja, atingiu até a própria presidenta da república num suposto ato de rebeldia que na verdade mostrou um discurso vazio com muita agressividade e pouco conteúdo.

Os problemas com a banda se estenderam ao backstage. A Cone Crew, que no palco canta a plenos pulmões “foda-se a tv”, restringiu o acesso e somente a emissora MTV, que acompanhava o grupo, pode fazer o seu trabalho. O show, como todo o resto, deu a sensação de que não passava de um grande circo midiático onde meia dúzia de meninos aprontava gracinhas para a câmera da tevê. Uma pena.

A primeira noite de Festival Suíça Bahiana foi sem dúvida brilhante por conta das atrações locais. Achiles Neto e a banda Complexo Ragga mostraram no palco um trabalho de qualidade igual ou superior as ditas atrações nacionais.

Scambo/ Foto: Luiza Audaz

O festival encerra os trabalhos do Coletivo durante o ano e na noite de sexta-feira mostrou bem um resumo do que viveu a cena alternativa de Vitória da Conquista. Ano de mais espaço para as culturas do rap, hip hop, sem dúvida memorável para o ragga e com uma forte presença das bandas soteropolitanas, como Scambo e Diamba.

Se em 2011 a aposta era os novíssimos baianos entitulados pelas bandas Maglore e Os Barcos, 2012 foi o ano do dancehall. Mas não acabou ainda, hoje tem muito mais na Arena Miraflores com Pouca Vogal, Vivendo do Ócio, Shadowside e Na Terra de Oz.