domingo, 5 de fevereiro de 2012

A instauração do pânico e o terrorismo psicológico – e o desserviço dos meios de comunicação à sociedade

Por Murillo Nonato

Praça Camilo de Jesus Lima, Vitória da Conquista. Acordo sobressaltado, por volta das quatro horas da manhã, escutando sons altos de machadadas em portas. Em um pulo, já em pânico, desço até o colchão que estava deitado no chão ao lado da minha cama, onde o meu amigo “C.”, se acomodava após uma noite de vinho, cigarros e conversa fiada até  duas horas da madrugada. Chacoalhei seu corpo e disse: “Acorda, o prédio está sendo arrombado”. Ouvindo o barulho da madeira se rachando e com os olhos arregalados já totalmente despertos, ele pensou: "vou morrer”.

A praça onde moro fica na região central da cidade, lugar em que se concentra comércio e é bastante visado por assaltantes. Com onda de violência, arrastões, arrombamentos e etc. que são divulgados pelos meios de comunicação e pelas redes sociais, por mais que se tente ser racional e não se deixe levar pelo sensacionalismo barato desses meios, fica extremamente complicado separar o que é real do que é ficção. Você acaba entrando na dança e como um vírus que se pega no ar, você é contaminado pela paranóia. Levando em conta o lugar que moro, na hora da música, bailei bonito.

“C.” e eu levantamos e ficamos ouvindo o insistente e angustiante barulho do martelar. O medo se apossou de nossos corpos e sem fazer qualquer barulho e sem ligar as luzes da casa, saímos do cômodo em que estávamos e tentamos avisar ao morador da república que ficava no quarto ao lado o que estava acontecendo. Batíamos à porta, sussurrávamos e nada de “I” dar sinal de vida. Decidimos passar para o quarto em frente ao meu, o qual tinha uma tranca e cuja dona estava viajando (sorte dela!). Varagosamente e sem fazer qualquer barulho, nos trancafiamos e ficamos sentados na cama esperando para ver ser os ladrões conseguiriam ou não entrar no prédio.

- Vou ligar para a polícia – Eu disse.

- A polícia está em greve, de que adianta? – Retrucou “C”.

- Foda-se. Vou ligar para a polícia -, insisti.

Disquei 911 e o celular começou a chamar. Chamou uma, duas, três vezes e nada. Minha ligação não foi atendida. Liguei uma segunda vez e novamente não recebi nenhuma resposta. Meu pânico aumentava gradativamente, sentia minha vida, a do meu amigo e a do outro morador em risco. Assombrado pelo recente assalto em Fortaleza, constantemente a imagem da arma apontada para a minha cabeça retornava à memória. “Passem tudo ou ele morre”, gritava o ladrão. Não podia ser assaltado novamente, não podia ver uma arma novamente. Não na minha cidade, não dentro da minha casa. Com o único órgão responsável pela segurança na cidade e no estado em greve, o que poderíamos fazer? A quem poderia recorrer? Sentamos e esperamos o acaso decidir o fim de tudo aquilo. Sem segurança em qualquer lugar do estado, comecei a me preocupar com os amigos e parentes que moram tanto na cidade de Salvador, Jequié e Vitória da Conquista. Estávamos todos a mercê da ação dos marginais e bandidos de toda a sorte.

O barulho cessou depois de mais ou menos trinta minutos. Momentos de tensão se seguiram. O que viria agora? Conseguiram abrir a porta do prédio? Para a nossa surpresa poucos minutos depois ouvimos algumas risadas, depois um carro deu a partida. O silêncio do prédio, habitual em madrugadas comuns, foi restaurado. Ficamos paralisados por 10 minutos esperando para ver se já era seguro sair. Abrimos a porta do quarto e atravessamos silenciosamente a sala. Tentamos olhar pelo olho mágico o que se passava pelo corredor e nada se podia ver. Ele estava escuro. “Filhos da puta, desligaram as luzes do corredor para que ninguém visse nada”.

Ligamos para o celular do amigo “I.”, para finalmente ver se ele conseguia acordar e dividia o momento de pânico conosco. Despertado pelo toque do celular, saiu do quarto. Relatamos o acontecido e o pobre acabou também entrando em estado de pânico. Sentamos todos no sofá da sala e começamos a conversar sobre o ocorrido.

- Meu Deus, como isso pode estar acontecendo - disse “I”.

- Velho, foi uma tentativa de arrombamento. Não há segurança nas ruas, estamos ferrados. A polícia entrou em greve ontem, imagine como vai ser a partir de amanhã - disse eu.

- Vocês viram nos jornais, não é? E nas redes sociais? Nas outras cidades estão ocorrendo arrastões e saques em lojas. Está uma loucura - alarmou "C".

- Não vou para o trabalho amanhã. Temos que arrumar outro lugar para dormir até que tudo volte ao normal - comentou “I”.

Ficamos até o dia clarear sentados conversando sobre o caos que se instaurava na cidade, sem conseguir dormir, curiosos para ir lá fora ver o que realmente havia acontecido. Quando finalmente percebemos movimento na rua e quando o sol havia nascido completamente, resolvemos averiguar a situação do prédio. Com armas de exterminação em massa nas mãos (pedaços de pau), descemos os dois lances de escadas. Chegamos até a porta do prédio e... Nada! Intacto. O que foi então todo aquele barulho? Teria sido nos comércios ao lado?

Abrimos o portão e saímos pela calçada olhando as lojas tentando encontrar sinais de arrombamento em alguma delas. O que encontramos? Nada. O que teria sido então tudo aquilo? Sugestão da nossa mente causada pelo pânico injetado em nós através dos jornais? “Esquizofrenia coletiva”?  Instigados e sem entender, com pedaços de pau na mão, subimos novamente para o nosso andar. Em silêncio, caminhos de volta para o apartamento nos sentido um pouco idiotas até que paramos de frente ao apartamento 101. Havia um buraco no lugar da maçaneta, a parte superior da porta estava toda quebrada e pedaços de madeira estavam espalhados pelo chão.  Tudo tinha acontecido no apto. da frente.

Com pernas tremendo e em total estado de choque, voltamos para a sala e ficávamos olhando perplexos uns para os outros. Como o ladrão entrou sem arrombar a porta do prédio? E a bondosa senhora que reside lá? O que teria acontecido com ela? Estaria vazio a apto.? Saberiam os ladrões disso? Teriam eles a chave do prédio? Seriam eles do prédio? Conhecidos da pobre senhora? Haveria um corpo estendido no chão? Fomos jogados dentro de C.S.I e  não fomos avisados? Muita pergunta sem resposta e isso nos angustiava.

- Sabe o que isso me lembra? – disse eu – Me lembra Ensaio Sobre a Cegueira. A vida em sociedade é muito frágil. Temos uma organização em sociedade que é extremamente frágil.  Uma falha que seja nessa corda bamba que chamamos de sociedade pode despertar a bestialidade humana, o terror, despertar a selvageria. Era disso que Saramago falava.

- Claro, claro! Em uma terra sem lei, sobrevive o mais forte. Imagine, no caos, se você tiver fome, se sua família tiver fome, ninguém respeitará ninguém. Todos lutaram pela sobrevivência - argumentou "I”. – A partir de agora todos são suspeitos, o estranho é suspeito. O ladrão não precisou de chave para entrar, pode ser alguém do prédio ou o conhecido de alguém que mora aqui.

Fomos levados a imaginar toda sorte de possibilidade de respostas para o ocorrido. Nosso pânico só aumentava. Podíamos ter escapado do assalto apenas por acaso. O apartamento escolhido poderia ter sido o de nossa república. Estávamos inquietos, amedrontados e principalmente CURIOSOS.

Saímos novamente do apartamento e ficamos olhando para a porta arrombada. “I” queria que empurrássemos  para ver a situação lá dentro. “Está louco? Se esse fosse um filme de terror, seríamos os primeiros a morrer. Sempre tem uns idiotas que querem averiguar o que está acontecendo e eles sempre morrem”, eu disse. Voltamos para o apartamento e resolvi tentar novamente entrar em contato com a polícia. Disquei o número, já era por volta das sete da manhã. Fui atendido.

- Alô? Moço? O apartamento de frente ao nosso foi arrombado. Não sabemos sem tem alguém nas casa. O fato mais estranho é que eles não arrombaram a porta do prédio. Não sabemos como conseguiram entrar e sem tinha pessoas dentro - eu disse.

- Não podemos fazer nada, estamos em greve. Preste queixa no DISEP. Provavelmente o ladrão é do seu prédio ou conhece pessoas e o hábito de quem mora aí. Tomem cuidado, vários prédios no centro foram arrombados e lojas foram saqueadas - disse  o policial em meio a um risinho de satisfação que ele parecia não poder conter.

Tudo começou a parecer para mim como parte de uma  real “esquizofrenia coletiva”  depois da conversa com o policial. Ele parecia estar contente com o meu medo e pior, parecia querer me induzir a um estado de pânico. Senti como se tivesse sendo usado como massa de manobra para uma estratégia de pressão ao governo. Sim! Desconfia-se que parte das lideranças desse movimento grevista estaria envolvido na produção de factóides, saques e etc. Apenas desconfia-se. O fato é que, real ou não, a situação de pânico poderia  estar sendo muito bem usada pelos grevistas como forma de pressão. Era isso o que pareciam querer, que houvesse o medo e o pânico. Aí as redes sócias colaboram com essa instauração disseminando boatos e inverdades em meio a fatos. Tem aqueles que aumentam mais não inventam. Os meios de comunicação institucionalizados pareciam também não colaborar para a ordem na comunidade, já que os jornais locais “sensacionalizam” os fatos, esquecem ou fingem esquecer do jornalismo imparcial e comprometido com a verdade que foi ensinado nas escolas.  Tentando me acalmar, estava decido não colaborar com esse terrorismo psicológico que a que estávamos sendo submetidos nesse momento de greve da PM.Meus colegas me perguntaram:

-E aí? O que o policial te disse?

- É o caos, a barbárie, o apocalipse, meus amigos! - não me contive.

Voltamos a nos desesperar novamente e como, claro, nas redes sociais só somos preparados e orientados a sobreviver a um ataque de zumbies e não para a greve da pm, ficamos desnorteados. Imaginamos a desordem que estaria a cidade após essa noite de crimes e de pânico, usando como base o que estava sendo noticiado nas outras cidades da Bahia, pelos meios de comunicação.

Quando a rua estava mais movimentada, decidimos tentar entrar contato com os moradores do apartamento arrombado pelo interfone do prédio. Descemos e tocamos o número. Para a nossa surpresa a voz da boa velhinha soou através da máquina.

- Quem é? - disse ela.

- Moça, a senhora está bem? Vimos que seu prédio foi arrombado. Está tudo bem? - eu disse.

- Não, meu filho. Não! Meu marido saiu, chegou de madrugada e esqueceu a chave. Tivemos que derrubar a porta. Não se preocupe não - respondeu a doce senhora.

Embasbacados com a real versão dos fatos, deitamos exaustos no sofá da sala e refletimos sobre o que havia ocorrido. Assombrados pelo sensacionalismo dos meios de comunicação e pela irresponsabilidade com a qual os fatos são tratados na redes sociais, nos deixamos levar pela pânico que se generalizou através desses, passando assim a imaginar uma situação de risco e desordem que na verdade não correspondiam a realidade.  E essa é apenas uma amostra do poder que tem esses meios e que nem sempre (ou quase nunca) são usados de maneira responsável. A PM está de greve e isso é um fato, mas não nos cabe desesperar fora da proporção e não cabe as empresas de comunicação se aproveitarem do fato para vender mais jornais ou ganhar mais audiência. 

Logo depois do susto, lembrei do texto postado por uma amiga na rede social Facebook:

“(...) O povo descontente com a violência habitual difunde os "saques" imaginários... 
Só uma coisa, aqui não é Salvador. E outra, parem de dar bafão, a polícia não serve ao povo. E sim ao Estado, e o Estado nunca serviu ao povo, nem servirá.”

Piadas a parte, a mensagem é valida. Não estamos em condições de ficarmos desatentos, é necessário que a segurança nos lares seja reforçada e que se possível, seja evitado sair de casa. Afinal de contas, querendo ou não, os policias estão de greve e existe muita gente má intencionada a solta. Ao mesmo tempo devemos ter senso critico com o que vemos na tv, lemos nos jornais e redes socias, as notícias estão sempre a serviço de alguém e raramente está a serviço dos interesses do povo. Agora  é evitar fazer parte dessa “esquizofrenia coletiva”, as vezes exagerada e sem sentido e ser cauteloso na proporção dos acontecimentos e não nos deixar cegar pelos excessos da mídia marrom.

7 comentários:

  1. Murillo, li todo o texto sem saber quem tinha escrito, depois que terminei subi a página correndo pra saber quem deveria elogiar. Adorei a abordagem do texto e a sua forma de escrever. Muito bom e muito incisivo! Parabéns!

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  2. Obrigado! Espero que a mensagem seja captada por todos e que sejamos mais responsáveis com o que disseminamos nas redes sociais nesse momento tão frágil com a atual situação. Esse é o papel que nos cabe como cidadãos comuns. - Murillo Nonato

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  3. Cara, compartilhei no face o link, mas trechos citando a fonte. perfeito seu texto. Infelizmente é isso ai que acontece mesmo!

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  4. Infelizmente, Willians. Agradeço por compartilhar! - Murillo Nonato

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  5. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  6. Parabéns pelo texto. E só veio a calhar com o clima em que estamos passando. Tive uma discussão com alguns amigos hoje justamente sobre isso: o caos instaurado pelos conquistenses. Não digo para não tomarem precauções, mas para se alertarem tanto ao perigo quanto as "informações" veiculadas. Mantenham o controle!

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