domingo, 4 de novembro de 2012

Só serei flor quando tu flores no verão

Por Mariana Kaoos
Ao longo da estrada que dá em Pasárgada, seguindo por diversas colinas, curvas perigosas e estrada de chão, é possível observar a vasta paisagem das flores do campo. Para quem olha rapidamente, elas parecem borrões de tintas coloridas, tamanha a intensidade de suas cores. Nos dias em que o Astro Rei aparece para lhes saudar, as flores ainda adquirem um brilho diferente, chegando a ofuscar a visão dos transeuntes e fazendo com que eles se percam no caminho, indo parar em outros lugares longínquos, que nada tem a ver com Pasárgada.

Ao contrário das bandas de lá, chamadas de cidades e que são sempre muito iguais, os limites do reino é protegido por uma fortaleza de tulipas gigantes. Embora pareçam frágeis e delicadas, as tulipas são “guerreiras” (apelido dado por outras flores). Sua armadura é da cor lilás e elas se põem rentes, firmes, dia e noite, noite e dia, de folhas dadas, impedindo a passagem dos tolos que, vezenquando, aparecem gananciosos, querendo explorar as terras sagradas.

Na verdade, a chegada delas foi mesmo um achado para Pasárgada. No dia em que o Rei Nu soube da fama das tulipas, fez uma cara de espanto, arregalou seus olhos verdes e perplexo, falou como que numa premonição: “Do centro da folhagem surge uma haste ereta, com flor solitária formada por seis pétalas”. Sentou no seu trono, que na verdade era um galho alto duma árvore e, olhando para os girassóis lá embaixo gritou: “convide as meninas turcas. Quero lhes dar moradia, alegria e paixão. Em troca, elas irão proteger o nosso reino dos invasores imbecis. O lugar delas é aqui e não na Turquia, França ou Holanda. Quero estas Tulipas!”. Prontamente, escreveu uma cartinha e mandou pelo seu mais ágil pombo correio.

No início elas bem que chegaram tímidas, inseguras, duvidosas. O trajeto para Pasárgada foi tenebroso. Embora fortes, elas não gostam de calor, nem de climas quentes. As tulipas, além de terem muita sede de vida, são umas matracas. Com suas vozes estridentes, não param de conversar sobre táticas de defesa, bem como sobre as lutas memoráveis que já presenciaram entre flores e homens ao redor do mundo. Por conta disso, pedem água o tempo todo. Ao receberem o convite do Rei Nu, elas logo imporam a condição de, pelo menos, um enorme ventilador, já que seria complicado depender apenas dos ventos de Oyá. Ele, louco para conhecê-las, prontamente atendeu.

Para o alivio das guerreiras, após cinco dias de viagem, elas chegaram ao reino encantado. Era uma manhã clara, todos estavam reunidos. A sereia das águas, junto com os golfinhos que ali estavam, fizeram uma breve apresentação de nado sincronizado, tirando calorosos aplausos do publico.  As flores de zabumba tocaram com suas trombetas uma musica bem bonita e, por fim, o maior e mais belo poeta do reino, conhecido como “U Mano” teceu breves elogios às Tulipas e agradeceu a disponibilidade delas em estarem ali.

Foi suficiente! Como em Pasárgada tudo se é possível desde que se acredite, as Tulipas ganharam um clima especial só para a região onde ficaram instaladas. Logo conheceram as Flores do Campo, as Avencas e Samambaias. Hoje são inseparáveis. Em Noite de Baile de Flor, elas são sempre as mais animadas, tomam todas, dançam todas, beijam todas, mas, no outro dia, estão a postos em suas posições de guardiãs reais. Sempre que travam luta com algum tolo e os veem saindo, perdedores, dão risadinhas, pois são tão tolos que mal sabem eles, das belezas que elas protegem com tanto amor e que estão todas do lado de lá.

sábado, 3 de novembro de 2012

Meu delicado drama

Por Rafael Flores


O cobrador do ônibus, que ficou de me avisar o ponto que eu pararia para descer no Recife Antigo cochilou enquanto ouvia Aviões do Forró com o volume estourando os fones de ouvido. Passei quilômetros do ponto pretendido e saltei no início de um viaduto. Apreensivo com os carros que passavam em alta velocidade e com os taxistas que me ignoravam, atravessei a rodovia com os olhos vidrados em um boteco, cujas portas estavam fechadas, mas com indícios de movimento no seu interior. Com o forte e belo sotaque pernambucano, a moça gorda indicou pelas frestas da porta do bar que eu teria que passar por baixo do viaduto para conseguir alcançar um ponto de ônibus, alertando para o perigo da região, tanto em relação ao grande fluxo de automóveis, quanto ao alto número de assaltos diários. 

Me assustando com cada barulho que surgia no caminho, atravessei aquele ermo, onde apenas as luzes intinerantes dos carros deixavam a mostra os grafites nas paredes. Na cabeça carregava “A noite mais linda do mundo”, de Odair José, então a assobiei para amenizar o medo, tentando não estalar os dedos. Chegando tortuosamente ao outro lado, o segurança de uma associação atlética, cuja entrada dividia espaço com o ponto de ônibus, foi o segundo a me alertar sobre a grande possibilidade deu ser assaltado por ali. Não poderia ligar para um táxi, a operadora sugara meus créditos e bônus com o deslocamento de estados e não havia orelhão por perto.

Quando minhas pernas já começavam as ficar trêmulas, um senhor taxista, ao meu sinal apreensivo, parou seu carro em um local proibido. “Não sei porque parei aqui, visse? Esse lugar é uma merda, só dá puta e ladrão, vários colegas assaltados por aqui, mas alguma coisa me mandou parar por você, eu nunca paro desse jeito”.

Fiquei impressionado por alguns segundos com a providência divina e sorri aliviado, agradecendo-o pela bondade. Logo depois de dizer pra onde iria me perdi em pensamentos soltos e me deparei com um boneco cabeçudo do Elvis Presley, o qual se balançava em baixo do retrovisor. Ao fundo uma voz grave cantava se lamentando da má sorte da vida. “Eu conheço essa voz, é o Evaldo Braga?”, perguntei, voltando a atenção para o senhor de boina que me guiava. Bastou eu levantar a questão para arrancar um sorriso do motorista. “Quantos anos você tem, meu filho? 20? Impossível, isso é música de gente velha”. 

Contei que cresci ouvindo Odair José e Evaldo Braga com meu pai e mais algumas referências adquiridas com meu tio cantador, como Waldick Soriano e Vicente Celestino. “Pois meus filhos, todos já com mais de trinta, falam que isso é Brega”. "É brega sim e daí? É brega por falar as coisas de um modo simplista e verdadeiro, isso não é bonito?" Foi o que eu disse mostrando meu pequeno conhecimento de causa. 

Contei ainda que a cidade onde nasci era inicialmente distrito de Caetité, cidade natal do mestre Soriano. Ouvia com atenção os segundos de cada música que o doce senhor me mostrava, enquanto me guiava pelas ruas escuras do Recife. Ele começou a discorrer sobre a história de vida e da morte trágica do “ídolo negro”, como era conhecido Evaldo Braga. Somando a isso, acrescentou uma frase, que não me lembro claramente, era algo sobre fazer música para o povo entender, sem se importar com o que pensa a crítica de elite. 

Na época esses cantores, que carregavam de romantismo suas canções, eram muito consumidos no nordeste e idolatrados a níveis beatlemaníacos, suas letras invadiam as casas através do rádio e da boêmia, através dos bailes. “Odair José mandou a mulher parar de tomar a pílula? Você sabe o que significou falar sobre isso em uma música numa época extremamente conservadora?”, foi só ouvir essa frase pra que eu pudesse entender como um taxista pode ser mais surpreendente e interessante do que qualquer aula na minha universidade.

O que mais queria naqueles minutos era aproveitar a paisagem da cidade-mangue e continuar a ouvir as crônicas do taxista. Estava disposto a ignorar a minha apresentação de um artigo sobre indie rock no outro dia e até pagaria o dinheiro que não possuia na carteira, mas eu tinha uma cerveja marcada e já estava atrasado pra caramba por conta de toda a odisséia.

No dia seguinte, no evento que me fez estar na cidade, presenciei uma palestra sobre a história da música popular brasileira. Palestra essa que não me apeteceu, pois tudo que eu queria era voltar para aquele táxi.

 t

Espetáculo "A Barca" hoje no Centro de Cultura


da Redação*


Foto: Divulgação
Mais uma alternativa para o sábado do feriadão e dessa vez a linguagem é o Teatro! O projeto Palco Giratório traz para Vitória da Conquista o espetáculo "A Barca". A apresentação estava prevista para acontecer às 19h na Praça 09 de Novembro, mas por conta do tempo chuvoso foi transferida para o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

A peça é uma montagem do Grupo Grial de Dança e dos Mestres do Cavalo Marinho, de Recife (PE). O resultado do encontro é a mistura da artes cênica e dança de rua com a cultura popular.  O Cavalo Marinho é um folguedo folclórico tradicional da zona da mata de Pernambuco e é baseado em histórias populares e eruditas das mais diversas possíveis, o que torna o espetáculo festivo, lúdico, poético, vigoroso e musical. 

O projeto Palco Giratório – Rede SESC de Intercâmbio, Difusão e descentralização das Artes Cênicas se consolida como uma das mais bem-sucedidas iniciativas culturais do país, ao promover o acesso a espetáculos de qualidade a um público amplo e diversificado e divulgar o trabalho de profissionais provenientes de diversos estados brasileiros. A classificação é livre e a entrada é gratuita.

Serviço: Espetáculo A Barca
Realização: Palco Giratório - Sesc
Local: Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima
Horário: 19h
Valor: Entrada Gratuita.

*(com informações do Centro de Cultura)


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Feira de Flores de Holambra traz alternativas para o feriadão

da Redação



A noite na pracinha do Gil foi regada a Blues e Rock N' Roll neste início de feridão. As bandas Distintivo Blue, Quarteto de Blues e El Dorado Blues foram as responsáveis por tirar o pessoal de casa para aproveitar o calor da primavera. E para isso, não existiria melhor oportunidade que a  a programação da 5ª edição da Conquista Florescendo - Feira de Flores de Holambra, onde as bandas se apresentaram. 

Foto: Instagram/ Juliana Flores
Pra quem ainda não conhece, a Feira expõe e comercializa centenas de espécies, vinda da cidade de Holambra em São Paulo e de quebra ainda promove ações culturais com apresentações de artistas locais e outras atividades. A edição de 2012 que começou no último dia 25 vai até domingo (4), mas  até lá muita coisa ainda vai rolar. Lembrando que o horário de funcionando da exposição é das 09h as 21h.

Programação:

Sábado (03): 19h  - Encontro de Guitarristas 

Domingo (04): Manhã - Campeonato de Judô
Tarde - Banda Ciranda (Espetáculo Infantil)
Noite (19h) -  Encerramento com Lúcio Ferraz

Por que K-Pop? #1 - Negatchê Tchalagá!


2NE1

Em junho de 2011, um quarteto sul-coreano chamado 2NE1 lançou um single – I Am The Best – que seria o grande divisor de águas do meu gosto, apreço e até devoção pela música e cultura Pop.

Por Lucas Oliveira Dantas

A minha maior dificuldade em falar e escrever sobre o K-Pop (Korean Pop) era responder à pergunta um tanto idiota (com o perdão pela honestidade brutal): “por que gostar de K-Pop?” Não sou dos que pregam que gosto não se discute: tudo pode ser discutido, desde que se saiba de antemão que há limites.

Eu ainda não sabia explicar meu limite com o K-Pop. Porque veja bem, à primeira vista/audição, o “K” do K-Pop não passa de um preciosismo, já que musical e visualmente o Korean Pop é muito parecido/igual ao Pop ocidental, seguindo as mesmas tendências norte-americanas e europeias, ao invés de defini-las e influenciá-las, como o Pop japonês foi capaz há alguns anos.

Se as semelhanças são tantas, eu não entendia o motivo do escárnio presente na pergunta; não entendia porque o gosto pelo pop sul-coreano estava renegado à caixa dos prazeres culposos – daqueles que você admite pra poucos ou apenas pro seu analista. Porque, se gosto não se discute, quem você pensa que é para questionar meu gosto por algo?

Eu já fui um desses espíritos de porco questionadores do nada. Até que ao final do ano passado eu caí na raia maravilhosa de uma batida - muito parecida com as club-bangers/floor-filler de Britney Spears - cantada numa língua estranha, mas com um refrão tão infeccioso que se sentia universal, seja lá o que quisesse dizer, não conseguia parar de cantar: NEGATCHÊ TCHALAGÁ!

Linha de Produção

Largar de babaquice e me assumir como um fã de K-Pop demorou um tempo. De lá para cá, tento acompanhar os lançamentos em enchentes desta indústria.

A grande singularidade do K-Pop está intimamente ligada à sua forma de produção. Em suma, a indústria mainstream do Pop coreano não está à busca de talentos auto formados que, por sua vez, buscam em algum momento da carreira um contrato com a alguma gravadora para a maior distribuição de seu trabalho.
Girls' Generation

De maneira resumida, no K-Pop há agências de talentos que estão sempre fazendo audições e contratando jovens. Estes, geralmente, são contratados ainda na infância (a partir dos 12 anos, alguns até mais novos) - tornando-se trainees - e são treinados em diversas áreas das artes performáticas: dança, canto, cênicas e até modelagem.

Os setores criativos das agências têm ideias e criam conceitos para algum grupo a ser lançado no mercado e selecionam, dentre esses trainees, os que melhores se encaixam nesses conceitos. Da audição à estréia, alguns jovens passam até mais de dez anos em treinamento. Essa é a fórmula geral para a criação de um grupo pop na indústria do K-Pop.

Mas como produtos tão manipulados conseguem ter tanto sucesso comercial e estético? As experiências ocidentais nos idos e fins dos anos 1990 não foram muito frutíferas: Spice Girls, Backstreet Boys, N’Sync e muitos outros tiveram grande sucesso comercial e cultural mundo afora, mas todos sucumbiram e desapareceram; fosse porque apenas um ou dois membros se destacavam (Justin Timberlake) ou simplesmente porque o interesse do público mudava para as divas teens (Britney, Christina Aguilera etc).

A eficiência e sucesso dos produtos do Pop coreano têm tudo a ver com a cultura rígida e disciplinada do Oriente. Se há algo que, para nós ocidentais, não precisa de muito estudo para perceber, é que orientais têm um senso de disciplina e conjunto centenas de vezes superior ao nosso.

São culturas milenares que resguardam muitas tradições e práticas, mesmo passando e acompanhando as milhares de mudanças das sociedades.

Então, os membros de um grupo coreano são apenas peças de um produto que não os pertence. Os conceitos, canções e imagens dos grupos não pertencem a seus membros e, sim, às agências; poucas são as agências que dão liberdade artística a seus grupos e poucos são estes que conseguem liberdades neste processo.

Resumindo, tudo é mercadologicamente pensado, programado e manufaturado para te conquistar e possuir.

Negatchê Tchalagá = Naega Jeil Jal Naga = I Am The Best

Óbvio que a música e até mesmo o pop coreanos não se resumem ao K-Pop - tudo na vida tem seu "alternativo". Mas, para os amantes da cultura Pop em geral, o K-Pop é um prato cheio e suculento. Especialmente por causa de seu tempero, a estética cultural sul-coreana obcecada pela perfeição.

Super Junior
Nos MVs (video clipes) de K-Pop, grupos de quatro a nove - às vezes treze, acredite - jovens cantam e dançam em perfeita sincronia, coreografias truncadas mas que, assim como os refrões chiclete das canções, contêm elementos fáceis, altamente copiáveis.

Todos os grandes hits do K-Pop no Youtube, como I Am The Best (2NE1), Gee (Girls’ Generation), Gangnam Style (PSY) etc seguem essa fórmula em algum nível, tornando-se sucesso porque cativaram o público com coreografias fáceis e icônicas.

Essa combinação de canções grudentas e coreografias cativantes, executadas por grupos de jovens terrivelmente belos, atraentes e talentosos fazem dos grupos de K-Pop superiores a qualquer coisa parecida feita pelo ocidente.

Ao comparar um vídeo de performance dos Backstreet Boys com qualquer um de Shinee (vídeo), você tem pena, sério, dos Backstreet Boys, por mais que se reconheça sua qualidade e talento.


Como dizem os Nerds/Hipsters, K-Pop é um nível de Pop que é “só para os fortes”. Pode-se apreciar as batidas, uma e outra melodia fácil, mas daí a mergulhar no maravilhoso mundo caramelizado e esteticamente simétrico do K-Pop requer um gosto muito grande pelo gênero.

Ainda assim, como o nome do grupo 2NE1 significa por extenso “to anyone” - “para qualquer um” -, o K-Pop é produzido para ser fácil e palatável aos olhos e ouvidos de todos, sem muitas pretensões filosóficas. Compreender a beleza e extrair a filosofia disso tudo que é o grande barato.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Pensar em fantasia em Vitória da Conquista, em meio à riqueza de cordéis e poetas é uma luta árdua" - O Rebucetê Entrevista: Thales Travalon


Foto: Arquivo pessoal


Por Ana Paula Marques

Thales Travalon, é estudante do IV semestre de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Com seu gosto nato pela escrita e por desenhar mapas nas aulas de geografia em sua época de escola, escolheu o curso para estudar os povos e suas civilizações, unindo o útil ao agradável. Thales é autor do livro "Os Contos de Nória - A Espada Imortal", que conta a história do personagem aventureiro Adrian Black em busca de sua origem. Em entrevista ao O Rebucetê, ele nos contou como se deu o processo de pesquisa e desenvolvimento do livro, publicado recentemente através de uma editora independente. Confiram:


O Rebucetê: Quanto tempo você levou para escrever a obra e qual o motivo que o levou a escrevê-la?

Thales Travalon: Quando me propus a desenvolver um mundo de fantasia, não me aventurei a fazer um rascunho de cara sobre a história em si. Primeiro trabalhei o que mais gosto: a mitologia Ni, que consta desde quando os deuses desse mundo começaram a existir, a divisão de seu céu, como as guerras começaram pelo trono celeste, como um “mundo” que não era dos deuses surgiu e como surgiu a vida nesse mundo. Logo em seguida precisei desenhar mapas, desenvolver uma espécie de “evolução” para esses “seres (não-humanos)”. As últimas atualizações foram a língua/escrita, o desenvolvimento do poder mágico e a construção dos primeiros cenários. Disso até escrever o primeiro capítulo do livro, eu passei quase toda a juventude levantando informações, lendo livros de fantasia e manuais de RPG. Do primeiro capítulo até finalizar a primeira obra, levei cerca de oito meses, contando com os bloqueios e o tempo que às vezes me faltava. E, escrevi porque sempre quis que a vida fosse uma ficção fantasiosa, então decidi criar uma nova vida num livro, onde o sistema fugia do mundo real e me levava para um mundo melhor, tipo um refúgio.

OR: Houveram dificuldades? Como foi esse processo de publicar o livro?

TT: A maior dificuldade que um escritor pode encontrar são os bloqueios criativos. Fazer rascunho e começar a escrever o livro e depois rasgar o rascunho e recomeçar tudo de novo... No meu caso, como meu propósito era criar um mundo completamente novo, tive que estudar mitologias (minha paixão) e tentar compreender porque, por exemplo, os Egípcios adoravam o sol, os Gregos pensavam que os deuses viviam num monte, porque os deuses germânicos eram bélicos... Esse exercício lentamente me fez pensar como seria o meu mundo e porque os deuses seriam, não deus do sol, deusa da lua, deus guerreiro, mas, deuses de magia, ciência, excesso, falta, música, dança e justiça. O levantamento de informações não termina aí, tive que aprender gramática, geografia, matemática... Tudo brincando! E isso foi o divertido. Levantar informações para construir um mundo, me “forçou” a aprender as leis de nosso mundo e suas funcionalidades (inclusive socioeconômicas, históricas, linguísticas, etc) e isso só foi positivo. Então, a dificuldade mesmo foi ter que transformar química em alquimia (risos) e física em magia (risos), porque eu não as entendia nem se o professor do ensino médio me explicasse uma vida toda. O processo de publicar o livro foi “simples”. Tentei editoras tradicionais primeiro, mas, acabei me desiludindo com o tempo com a ideia de ser escritor “controlado” por editoras. Então, decidi participar de uma editora de cultura livre, onde todos podem publicar e que não interfere em nada durante o processo. Agora, os problemas internos são vários, como por exemplo: formar um público, achar primeiros leitores... Por eu jogar RPG com vários amigos isso se tornou mais fácil.

OR: O que o motivou a ser escritor?


TT: Eu passava as aulas de química e física desenhando mapas. E nas aulas de geografia catalogando letras. E nas aulas de história tentando pensar porque precisa saber sobre povos no passado. Mas, as aulas de português foram as melhores. Eu sempre adorava escrever e criar redações e mostrar aos meus professores, que incluíam desde críticas políticas até fantasias e contos breves. E, não fiz letras porque achei mais produtivo, pro meu segmento, fazer história. História é um desafio gigantesco. É necessário estudar os povos e suas civilizações (que não são poucas e são complexas) e esse exercício foi me fortalecendo cada vez mais. Acredito que, encontrando o que eu queria fazer, juntei o útil ao agradável e decidi arriscar ser lido pelas pessoas (um público maior que meus professores de literatura).

OR? Você me disse que a literatura nacional está conhecendo a ficção fantasiosa por agora, com alguns nomes como Raphael Draccon, Eduardo Spohr, etc. Fale um pouco sobre o que você sente em estar “encabeçando” esse movimento em Vitória da Conquista.


Capa do livro "Os Contos de Nória", lançado
por uma editora independente.
TT: O Brasil tem um bonito folclore, isso não se pode negar. Mas, a fantasia que foi imortalizada por Tolkien (O Senhor dos Anéis), Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon), Rowlling (Harry Potter), Martin (A Guerra dos Tronos) estamos encontrando por agora com Draccon (Dragões de Éter) e o Spohr (A Batalha do Apocalipse), ainda que eu considere O Sítio do Pica-pau Amarelo uma fantasia geniosa, eu sinceramente preferiria que Emília montasse num cavalo e saísse com uma espada destruindo metade do sítio (risos). É divertido ir onde ninguém nunca chegou. No meu caso, Nória. É claro que Tolkien criou um mundo dez vezes melhor que o meu, nem por isso desmereço meu esforço. Eu tenho incentivado o quanto posso que ainda mais pessoas leiam Spohr e Draccon. Pensar em escritores de fantasia no Brasil é pensar em tempo e esforço. E pensar em fantasia em Vitória da Conquista, em meio à riqueza de cordéis e poetas é uma luta árdua. Uma luta divertida e que requer paciência. Convencer pessoas a dar um espaço em sua estante para escritores não-renomados como eu, é pedir que atirem no escuro. Ainda assim, eu continuo recomendando que leiam cada vez mais escritores brasileiros, afinal, nós brasileiros temos muito a contar também, em relação à fantasia. Temos poetas imortalizados, temos poetas consagrados, porque não escritores de fantasia também imortalizados?

Você sabe quem é Wilson Simonal?

Por Marcelo Lopes


Foto: Google Imagens
Tenho uma mania que já me deu muitos prazeres na vida que é fuçar o passado. Sons, imagens, filmes, contos populares, costumes antigos, palavras, tudo me desperta a curiosidade. Não sei se pela influência da minha formação em História ou se foi mesmo esta mania que me levou a entrar para esta área, mas o fato é que muito recentemente redescobri algo que o Brasil fez questão de esquecer: Wilson Simonal.

Este personagem polêmico da história recente do país cruzou meu caminho inúmeras vezes nos últimos cinco anos, aparecendo em livros, documentários e, especialmente, na execução pontual de suas músicas. Simonal ainda hoje é um fenômeno peculiar no Brasil por dois motivos centrais. O primeiro, por um talento musical e cênico incrível, datado em seu tempo, mas popular ao extremo. Tinha uma capacidade de atrair o público de forma avassaladora, moldada a partir de uma jogada de mídia assertiva. Como um Luan Santana elevado à quinta potência, só que com talento. De outro lado, foi o bode-expiatório de um episódio que expôs toda virulência e preconceito de um Brasil cru, desnudado de suas maquiagens, de um país de “homens cordiais”, como bem dizia Sérgio Buarque de Holanda.

Wilson Simonal de Castro (pai dos músicos Max de Castro e Simoninha) foi um dos maiores showmens que o Brasil já teve, numa época em que isso ainda precisava ser inventado por aqui. Chamou muito minha atenção que alguém assim tenha passado em brancas nuvens à minha geração, que dele só chegamos a conhecer, quando muito,  a canção “País Tropical”, e mesmo assim, referendada por ser uma música de Jorge Ben Jor. Ícone do que ficou conhecido como “pilantragem”, o cantor encarnava a figura do malandro carioca. Não o malandro dos morros, mas o malandro da esperteza safa de quem transita por todo lado “tirando onda”, da ginga inconfundível que dialogou magistralmente com as duas frentes musicais mais importantes da sua época, embora totalmente antagônicas: a Bossa Nova e a Jovem Guarda.

Como bem descreveu o escritor Ricardo Alexandre, em sua biografia sobre o cantor, intitulada Nem Vem Que Não Tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal: “produtores, fãs, familiares, amigos, detratores, gente de televisão, colegas músicos, técnicos de som, não há quem não ressalte, sempre com olhos arregalados (...) o suingue infernal, indescritível e fora de série de Simonal”. De fato, muitas décadas depois, eu mesmo vi isso acontecer.

Nos tempos de hoje, em que a música comercial nos empurra doses cavalares (e questionáveis) de sons pouco criativos e massificantes, elegendo quatro ou cinco gêneros como se mais nada houvesse no mundo, a capacidade de percepção apurada da população é recorrentemente subestimada. Recentemente, coordenei uma atividade em espaço público cujo evento tinha como fundo musical algumas músicas selecionadas. Muitas pessoas da comunidade local me perguntaram quem cantava, porque achavam o som muito bom, “estiloso” e “moderno”. Queriam saber sobre as versões de músicas conhecidíssimas como “Madalena”, Ivan Lins, e "Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso, executadas de forma tão diferente e rítmica. Era Simonal.
O artista multifacetado descobriu seu potencial quando serviu ao exército e daí em diante não parou mais. Era capaz de movimentar plateias imensas e dominá-las com um carisma brilhante num tempo em que isso não era nada comum; cantar inglês perfeitamente, aprendido somente de ouvir (vide show com a diva Sarah Vaughan); ter um talento respeitado tanto por bossanovistas e jovem-guardistas, e ser, à sua época, um fenômeno à altura de Roberto Carlos no auge do iê-iê-iê. Estas eram apenas algumas de suas características, e, ironicamente, num país como o nosso, com uma ressalva importante: era negro, filho de empregada doméstica e viveu boa parte da vida pobre-pobre de marré-de-si.

Com o sucesso crescente, o patrimônio se avolumando e dono do maior contrato de publicidade até então assinado no país (com a empresa Shell), Simonal se envolveria num “embrulho” maior que ele mesmo, capaz de colocá-lo na pior situação que alguém poderia se encontrar no meio artístico em plena Ditadura Militar.

Em 1971, o cantor, desconfiado de seu contador, acusou-o de desfalque, demitindo-o. O suposto culpado moveu uma ação trabalhista contra Simonal e este fez a pior coisa que poderia ter feito: pediu a dois amigos militares para conseguir uma confissão do contador. Os soldados o levaram para as dependências do famigerado DOPS e o torturaram. 

Simonal acabou sendo acusado de sequestrador e entrou para a história como dedo-duro, um estigma que colou-se a sua imagem até o fim da vida. Nenhum artista queria mais tê-lo por perto, cantar, tocar, falar, ser visto perto do homem que até pouco antes era o maior espetáculo do Brasil. Perdeu o respeito, patrocinadores, shows agendados e o nome. Foi relegado violentamente ao ostracismo, sem direito a voz ou vez. Ser considerado delator em plena Ditadura Militar era pior que qualquer outra coisa. Simonal foi julgado culpado (formal e informalmente) pelo sequestro. Nos autos, era referido como colaborador das Forças Armadas e informante do DOPS.

Wilson Simonal, como um fenômeno brasileiro só pode ser compreendido no seu contexto. Em primeiro plano, foi a expressão de um talento individual e popular, um homem negro orgulhoso de ter vencido num país que o via com espetacular respeito. Um país cujo discurso da miscigenação e da tolerância racial não correspondia à realidade, muito menos que hoje. Seu status de artista era conveniente às exceções e Simonal transitava soberano, sob o manto do “todo onipotente da pilantragem”, termo que encarnava materialmente o “jeitinho brasileiro”. Num segundo momento, passou a ser a concretização dos medos, das neuroses e de tudo aquilo que o país “politizado-contra-a-repressão” não tolerava: um delator (na verdade, sem direito real de resposta sob sua própria situação), um amigo da ditadura (por ter sua história ligada aos tempos de exército) e principalmente, um homem sem caráter, capaz de atrocidades, de sequestro, como, aliás, dizia-se à boca pequena, era passível de acontecer, sendo ele um homem vindo da favela, de um ambiente pernicioso. Não que isso aconteça com todos da favela, Deus-me-livre, mas ficou claro que foi o caso dele. Entre todo o revanchismo sobre Simonal era isso que pensava o Brasil. Lógico, nada disso dito tão abertamente assim, mas tudo estava ali, visível acima das entrelinhas.

Somente há muito pouco tempo, Simonal deixou de ser um tabu. Começou-se mesmo a questionar se o caso do sequestro não foi apenas um “vacilo”, um ato impensado que se saiu do controle. Se houve mesmo a necessidade de descer sobre ele o manto do esquecimento e de tamanha repulsa. Principalmente, se a voz que o calou não foi de fato a do medo e do preconceito.

Simonal morreu em 25 de julho de 2000. Magro, alcoólatra, amargo e esquecido. Lutando ainda, com documentos à mão, para provar o que ninguém mais lembrava ou queria saber. Seu talento, no entanto, ainda marca indelevelmente a nossa história musical, embora sob uma sombra espessa que ainda hoje paira e o esconde. 

Para quem reconhece um talento, vale a pena conhecer. 

Fica a dica.



Confiram o trailler do documentário: