sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Por que K-Pop? #1 - Negatchê Tchalagá!


2NE1

Em junho de 2011, um quarteto sul-coreano chamado 2NE1 lançou um single – I Am The Best – que seria o grande divisor de águas do meu gosto, apreço e até devoção pela música e cultura Pop.

Por Lucas Oliveira Dantas

A minha maior dificuldade em falar e escrever sobre o K-Pop (Korean Pop) era responder à pergunta um tanto idiota (com o perdão pela honestidade brutal): “por que gostar de K-Pop?” Não sou dos que pregam que gosto não se discute: tudo pode ser discutido, desde que se saiba de antemão que há limites.

Eu ainda não sabia explicar meu limite com o K-Pop. Porque veja bem, à primeira vista/audição, o “K” do K-Pop não passa de um preciosismo, já que musical e visualmente o Korean Pop é muito parecido/igual ao Pop ocidental, seguindo as mesmas tendências norte-americanas e europeias, ao invés de defini-las e influenciá-las, como o Pop japonês foi capaz há alguns anos.

Se as semelhanças são tantas, eu não entendia o motivo do escárnio presente na pergunta; não entendia porque o gosto pelo pop sul-coreano estava renegado à caixa dos prazeres culposos – daqueles que você admite pra poucos ou apenas pro seu analista. Porque, se gosto não se discute, quem você pensa que é para questionar meu gosto por algo?

Eu já fui um desses espíritos de porco questionadores do nada. Até que ao final do ano passado eu caí na raia maravilhosa de uma batida - muito parecida com as club-bangers/floor-filler de Britney Spears - cantada numa língua estranha, mas com um refrão tão infeccioso que se sentia universal, seja lá o que quisesse dizer, não conseguia parar de cantar: NEGATCHÊ TCHALAGÁ!

Linha de Produção

Largar de babaquice e me assumir como um fã de K-Pop demorou um tempo. De lá para cá, tento acompanhar os lançamentos em enchentes desta indústria.

A grande singularidade do K-Pop está intimamente ligada à sua forma de produção. Em suma, a indústria mainstream do Pop coreano não está à busca de talentos auto formados que, por sua vez, buscam em algum momento da carreira um contrato com a alguma gravadora para a maior distribuição de seu trabalho.
Girls' Generation

De maneira resumida, no K-Pop há agências de talentos que estão sempre fazendo audições e contratando jovens. Estes, geralmente, são contratados ainda na infância (a partir dos 12 anos, alguns até mais novos) - tornando-se trainees - e são treinados em diversas áreas das artes performáticas: dança, canto, cênicas e até modelagem.

Os setores criativos das agências têm ideias e criam conceitos para algum grupo a ser lançado no mercado e selecionam, dentre esses trainees, os que melhores se encaixam nesses conceitos. Da audição à estréia, alguns jovens passam até mais de dez anos em treinamento. Essa é a fórmula geral para a criação de um grupo pop na indústria do K-Pop.

Mas como produtos tão manipulados conseguem ter tanto sucesso comercial e estético? As experiências ocidentais nos idos e fins dos anos 1990 não foram muito frutíferas: Spice Girls, Backstreet Boys, N’Sync e muitos outros tiveram grande sucesso comercial e cultural mundo afora, mas todos sucumbiram e desapareceram; fosse porque apenas um ou dois membros se destacavam (Justin Timberlake) ou simplesmente porque o interesse do público mudava para as divas teens (Britney, Christina Aguilera etc).

A eficiência e sucesso dos produtos do Pop coreano têm tudo a ver com a cultura rígida e disciplinada do Oriente. Se há algo que, para nós ocidentais, não precisa de muito estudo para perceber, é que orientais têm um senso de disciplina e conjunto centenas de vezes superior ao nosso.

São culturas milenares que resguardam muitas tradições e práticas, mesmo passando e acompanhando as milhares de mudanças das sociedades.

Então, os membros de um grupo coreano são apenas peças de um produto que não os pertence. Os conceitos, canções e imagens dos grupos não pertencem a seus membros e, sim, às agências; poucas são as agências que dão liberdade artística a seus grupos e poucos são estes que conseguem liberdades neste processo.

Resumindo, tudo é mercadologicamente pensado, programado e manufaturado para te conquistar e possuir.

Negatchê Tchalagá = Naega Jeil Jal Naga = I Am The Best

Óbvio que a música e até mesmo o pop coreanos não se resumem ao K-Pop - tudo na vida tem seu "alternativo". Mas, para os amantes da cultura Pop em geral, o K-Pop é um prato cheio e suculento. Especialmente por causa de seu tempero, a estética cultural sul-coreana obcecada pela perfeição.

Super Junior
Nos MVs (video clipes) de K-Pop, grupos de quatro a nove - às vezes treze, acredite - jovens cantam e dançam em perfeita sincronia, coreografias truncadas mas que, assim como os refrões chiclete das canções, contêm elementos fáceis, altamente copiáveis.

Todos os grandes hits do K-Pop no Youtube, como I Am The Best (2NE1), Gee (Girls’ Generation), Gangnam Style (PSY) etc seguem essa fórmula em algum nível, tornando-se sucesso porque cativaram o público com coreografias fáceis e icônicas.

Essa combinação de canções grudentas e coreografias cativantes, executadas por grupos de jovens terrivelmente belos, atraentes e talentosos fazem dos grupos de K-Pop superiores a qualquer coisa parecida feita pelo ocidente.

Ao comparar um vídeo de performance dos Backstreet Boys com qualquer um de Shinee (vídeo), você tem pena, sério, dos Backstreet Boys, por mais que se reconheça sua qualidade e talento.


Como dizem os Nerds/Hipsters, K-Pop é um nível de Pop que é “só para os fortes”. Pode-se apreciar as batidas, uma e outra melodia fácil, mas daí a mergulhar no maravilhoso mundo caramelizado e esteticamente simétrico do K-Pop requer um gosto muito grande pelo gênero.

Ainda assim, como o nome do grupo 2NE1 significa por extenso “to anyone” - “para qualquer um” -, o K-Pop é produzido para ser fácil e palatável aos olhos e ouvidos de todos, sem muitas pretensões filosóficas. Compreender a beleza e extrair a filosofia disso tudo que é o grande barato.


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"Pensar em fantasia em Vitória da Conquista, em meio à riqueza de cordéis e poetas é uma luta árdua" - O Rebucetê Entrevista: Thales Travalon


Foto: Arquivo pessoal


Por Ana Paula Marques

Thales Travalon, é estudante do IV semestre de História da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Com seu gosto nato pela escrita e por desenhar mapas nas aulas de geografia em sua época de escola, escolheu o curso para estudar os povos e suas civilizações, unindo o útil ao agradável. Thales é autor do livro "Os Contos de Nória - A Espada Imortal", que conta a história do personagem aventureiro Adrian Black em busca de sua origem. Em entrevista ao O Rebucetê, ele nos contou como se deu o processo de pesquisa e desenvolvimento do livro, publicado recentemente através de uma editora independente. Confiram:


O Rebucetê: Quanto tempo você levou para escrever a obra e qual o motivo que o levou a escrevê-la?

Thales Travalon: Quando me propus a desenvolver um mundo de fantasia, não me aventurei a fazer um rascunho de cara sobre a história em si. Primeiro trabalhei o que mais gosto: a mitologia Ni, que consta desde quando os deuses desse mundo começaram a existir, a divisão de seu céu, como as guerras começaram pelo trono celeste, como um “mundo” que não era dos deuses surgiu e como surgiu a vida nesse mundo. Logo em seguida precisei desenhar mapas, desenvolver uma espécie de “evolução” para esses “seres (não-humanos)”. As últimas atualizações foram a língua/escrita, o desenvolvimento do poder mágico e a construção dos primeiros cenários. Disso até escrever o primeiro capítulo do livro, eu passei quase toda a juventude levantando informações, lendo livros de fantasia e manuais de RPG. Do primeiro capítulo até finalizar a primeira obra, levei cerca de oito meses, contando com os bloqueios e o tempo que às vezes me faltava. E, escrevi porque sempre quis que a vida fosse uma ficção fantasiosa, então decidi criar uma nova vida num livro, onde o sistema fugia do mundo real e me levava para um mundo melhor, tipo um refúgio.

OR: Houveram dificuldades? Como foi esse processo de publicar o livro?

TT: A maior dificuldade que um escritor pode encontrar são os bloqueios criativos. Fazer rascunho e começar a escrever o livro e depois rasgar o rascunho e recomeçar tudo de novo... No meu caso, como meu propósito era criar um mundo completamente novo, tive que estudar mitologias (minha paixão) e tentar compreender porque, por exemplo, os Egípcios adoravam o sol, os Gregos pensavam que os deuses viviam num monte, porque os deuses germânicos eram bélicos... Esse exercício lentamente me fez pensar como seria o meu mundo e porque os deuses seriam, não deus do sol, deusa da lua, deus guerreiro, mas, deuses de magia, ciência, excesso, falta, música, dança e justiça. O levantamento de informações não termina aí, tive que aprender gramática, geografia, matemática... Tudo brincando! E isso foi o divertido. Levantar informações para construir um mundo, me “forçou” a aprender as leis de nosso mundo e suas funcionalidades (inclusive socioeconômicas, históricas, linguísticas, etc) e isso só foi positivo. Então, a dificuldade mesmo foi ter que transformar química em alquimia (risos) e física em magia (risos), porque eu não as entendia nem se o professor do ensino médio me explicasse uma vida toda. O processo de publicar o livro foi “simples”. Tentei editoras tradicionais primeiro, mas, acabei me desiludindo com o tempo com a ideia de ser escritor “controlado” por editoras. Então, decidi participar de uma editora de cultura livre, onde todos podem publicar e que não interfere em nada durante o processo. Agora, os problemas internos são vários, como por exemplo: formar um público, achar primeiros leitores... Por eu jogar RPG com vários amigos isso se tornou mais fácil.

OR: O que o motivou a ser escritor?


TT: Eu passava as aulas de química e física desenhando mapas. E nas aulas de geografia catalogando letras. E nas aulas de história tentando pensar porque precisa saber sobre povos no passado. Mas, as aulas de português foram as melhores. Eu sempre adorava escrever e criar redações e mostrar aos meus professores, que incluíam desde críticas políticas até fantasias e contos breves. E, não fiz letras porque achei mais produtivo, pro meu segmento, fazer história. História é um desafio gigantesco. É necessário estudar os povos e suas civilizações (que não são poucas e são complexas) e esse exercício foi me fortalecendo cada vez mais. Acredito que, encontrando o que eu queria fazer, juntei o útil ao agradável e decidi arriscar ser lido pelas pessoas (um público maior que meus professores de literatura).

OR? Você me disse que a literatura nacional está conhecendo a ficção fantasiosa por agora, com alguns nomes como Raphael Draccon, Eduardo Spohr, etc. Fale um pouco sobre o que você sente em estar “encabeçando” esse movimento em Vitória da Conquista.


Capa do livro "Os Contos de Nória", lançado
por uma editora independente.
TT: O Brasil tem um bonito folclore, isso não se pode negar. Mas, a fantasia que foi imortalizada por Tolkien (O Senhor dos Anéis), Zimmer Bradley (As Brumas de Avalon), Rowlling (Harry Potter), Martin (A Guerra dos Tronos) estamos encontrando por agora com Draccon (Dragões de Éter) e o Spohr (A Batalha do Apocalipse), ainda que eu considere O Sítio do Pica-pau Amarelo uma fantasia geniosa, eu sinceramente preferiria que Emília montasse num cavalo e saísse com uma espada destruindo metade do sítio (risos). É divertido ir onde ninguém nunca chegou. No meu caso, Nória. É claro que Tolkien criou um mundo dez vezes melhor que o meu, nem por isso desmereço meu esforço. Eu tenho incentivado o quanto posso que ainda mais pessoas leiam Spohr e Draccon. Pensar em escritores de fantasia no Brasil é pensar em tempo e esforço. E pensar em fantasia em Vitória da Conquista, em meio à riqueza de cordéis e poetas é uma luta árdua. Uma luta divertida e que requer paciência. Convencer pessoas a dar um espaço em sua estante para escritores não-renomados como eu, é pedir que atirem no escuro. Ainda assim, eu continuo recomendando que leiam cada vez mais escritores brasileiros, afinal, nós brasileiros temos muito a contar também, em relação à fantasia. Temos poetas imortalizados, temos poetas consagrados, porque não escritores de fantasia também imortalizados?

Você sabe quem é Wilson Simonal?

Por Marcelo Lopes


Foto: Google Imagens
Tenho uma mania que já me deu muitos prazeres na vida que é fuçar o passado. Sons, imagens, filmes, contos populares, costumes antigos, palavras, tudo me desperta a curiosidade. Não sei se pela influência da minha formação em História ou se foi mesmo esta mania que me levou a entrar para esta área, mas o fato é que muito recentemente redescobri algo que o Brasil fez questão de esquecer: Wilson Simonal.

Este personagem polêmico da história recente do país cruzou meu caminho inúmeras vezes nos últimos cinco anos, aparecendo em livros, documentários e, especialmente, na execução pontual de suas músicas. Simonal ainda hoje é um fenômeno peculiar no Brasil por dois motivos centrais. O primeiro, por um talento musical e cênico incrível, datado em seu tempo, mas popular ao extremo. Tinha uma capacidade de atrair o público de forma avassaladora, moldada a partir de uma jogada de mídia assertiva. Como um Luan Santana elevado à quinta potência, só que com talento. De outro lado, foi o bode-expiatório de um episódio que expôs toda virulência e preconceito de um Brasil cru, desnudado de suas maquiagens, de um país de “homens cordiais”, como bem dizia Sérgio Buarque de Holanda.

Wilson Simonal de Castro (pai dos músicos Max de Castro e Simoninha) foi um dos maiores showmens que o Brasil já teve, numa época em que isso ainda precisava ser inventado por aqui. Chamou muito minha atenção que alguém assim tenha passado em brancas nuvens à minha geração, que dele só chegamos a conhecer, quando muito,  a canção “País Tropical”, e mesmo assim, referendada por ser uma música de Jorge Ben Jor. Ícone do que ficou conhecido como “pilantragem”, o cantor encarnava a figura do malandro carioca. Não o malandro dos morros, mas o malandro da esperteza safa de quem transita por todo lado “tirando onda”, da ginga inconfundível que dialogou magistralmente com as duas frentes musicais mais importantes da sua época, embora totalmente antagônicas: a Bossa Nova e a Jovem Guarda.

Como bem descreveu o escritor Ricardo Alexandre, em sua biografia sobre o cantor, intitulada Nem Vem Que Não Tem: a vida e o veneno de Wilson Simonal: “produtores, fãs, familiares, amigos, detratores, gente de televisão, colegas músicos, técnicos de som, não há quem não ressalte, sempre com olhos arregalados (...) o suingue infernal, indescritível e fora de série de Simonal”. De fato, muitas décadas depois, eu mesmo vi isso acontecer.

Nos tempos de hoje, em que a música comercial nos empurra doses cavalares (e questionáveis) de sons pouco criativos e massificantes, elegendo quatro ou cinco gêneros como se mais nada houvesse no mundo, a capacidade de percepção apurada da população é recorrentemente subestimada. Recentemente, coordenei uma atividade em espaço público cujo evento tinha como fundo musical algumas músicas selecionadas. Muitas pessoas da comunidade local me perguntaram quem cantava, porque achavam o som muito bom, “estiloso” e “moderno”. Queriam saber sobre as versões de músicas conhecidíssimas como “Madalena”, Ivan Lins, e "Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso, executadas de forma tão diferente e rítmica. Era Simonal.
O artista multifacetado descobriu seu potencial quando serviu ao exército e daí em diante não parou mais. Era capaz de movimentar plateias imensas e dominá-las com um carisma brilhante num tempo em que isso não era nada comum; cantar inglês perfeitamente, aprendido somente de ouvir (vide show com a diva Sarah Vaughan); ter um talento respeitado tanto por bossanovistas e jovem-guardistas, e ser, à sua época, um fenômeno à altura de Roberto Carlos no auge do iê-iê-iê. Estas eram apenas algumas de suas características, e, ironicamente, num país como o nosso, com uma ressalva importante: era negro, filho de empregada doméstica e viveu boa parte da vida pobre-pobre de marré-de-si.

Com o sucesso crescente, o patrimônio se avolumando e dono do maior contrato de publicidade até então assinado no país (com a empresa Shell), Simonal se envolveria num “embrulho” maior que ele mesmo, capaz de colocá-lo na pior situação que alguém poderia se encontrar no meio artístico em plena Ditadura Militar.

Em 1971, o cantor, desconfiado de seu contador, acusou-o de desfalque, demitindo-o. O suposto culpado moveu uma ação trabalhista contra Simonal e este fez a pior coisa que poderia ter feito: pediu a dois amigos militares para conseguir uma confissão do contador. Os soldados o levaram para as dependências do famigerado DOPS e o torturaram. 

Simonal acabou sendo acusado de sequestrador e entrou para a história como dedo-duro, um estigma que colou-se a sua imagem até o fim da vida. Nenhum artista queria mais tê-lo por perto, cantar, tocar, falar, ser visto perto do homem que até pouco antes era o maior espetáculo do Brasil. Perdeu o respeito, patrocinadores, shows agendados e o nome. Foi relegado violentamente ao ostracismo, sem direito a voz ou vez. Ser considerado delator em plena Ditadura Militar era pior que qualquer outra coisa. Simonal foi julgado culpado (formal e informalmente) pelo sequestro. Nos autos, era referido como colaborador das Forças Armadas e informante do DOPS.

Wilson Simonal, como um fenômeno brasileiro só pode ser compreendido no seu contexto. Em primeiro plano, foi a expressão de um talento individual e popular, um homem negro orgulhoso de ter vencido num país que o via com espetacular respeito. Um país cujo discurso da miscigenação e da tolerância racial não correspondia à realidade, muito menos que hoje. Seu status de artista era conveniente às exceções e Simonal transitava soberano, sob o manto do “todo onipotente da pilantragem”, termo que encarnava materialmente o “jeitinho brasileiro”. Num segundo momento, passou a ser a concretização dos medos, das neuroses e de tudo aquilo que o país “politizado-contra-a-repressão” não tolerava: um delator (na verdade, sem direito real de resposta sob sua própria situação), um amigo da ditadura (por ter sua história ligada aos tempos de exército) e principalmente, um homem sem caráter, capaz de atrocidades, de sequestro, como, aliás, dizia-se à boca pequena, era passível de acontecer, sendo ele um homem vindo da favela, de um ambiente pernicioso. Não que isso aconteça com todos da favela, Deus-me-livre, mas ficou claro que foi o caso dele. Entre todo o revanchismo sobre Simonal era isso que pensava o Brasil. Lógico, nada disso dito tão abertamente assim, mas tudo estava ali, visível acima das entrelinhas.

Somente há muito pouco tempo, Simonal deixou de ser um tabu. Começou-se mesmo a questionar se o caso do sequestro não foi apenas um “vacilo”, um ato impensado que se saiu do controle. Se houve mesmo a necessidade de descer sobre ele o manto do esquecimento e de tamanha repulsa. Principalmente, se a voz que o calou não foi de fato a do medo e do preconceito.

Simonal morreu em 25 de julho de 2000. Magro, alcoólatra, amargo e esquecido. Lutando ainda, com documentos à mão, para provar o que ninguém mais lembrava ou queria saber. Seu talento, no entanto, ainda marca indelevelmente a nossa história musical, embora sob uma sombra espessa que ainda hoje paira e o esconde. 

Para quem reconhece um talento, vale a pena conhecer. 

Fica a dica.



Confiram o trailler do documentário:

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Too Late! (antigone) contest #2

Por Ayume Oliveira


Talvez não tão tarde... a peça italiana encena as esferas do poder, tanto no âmbito da macropolítica quanto no familiar, e mescla elementos contemporâneos à tragédia grega Antígona, com citações de Bertold Brecht e exaltação de movimentos sociais como “Occupy Wall Street”.

A peça começa com o diálogo entre pai e filho (personagem encenado por uma mulher com características andrógenas que ao decorrer do espetáculo se desfaz do bigode falso e da peruca). O diálogo no primeiro Ato é bestializado e o adolescente se transforma em um cachorro voraz. Entre latidos a relação de poder entre pai e filho se destrincha. O cão grane e o pai assobia 'fiu-fiu-fiu... calminha... aqui tá o seu osso', que soa como 'você depende de mim, e sabe disso'.

A peça utiliza de recursos do teatro contemporâneo, como a metalinguagem, onde os atores muitas vezes paralizam a cena para discorrer sobre a encenação: “como ficaria melhor?”; “tenho dificuldade no latido, puxa aqui... no diafragma” ou “se Creonte morresse de bala perdida causaria mais impacto no nosso público ou seria melhor um ataque fulminante?”

A tragédia grega, escrita há 2500 anos por Sófoles, expõe a problemática da opressão de um Estado e a condição da jovem Antígona, sobrinha de Creonte, que o enfrenta. Os dois atores, Silvia Calderoni e Vladimir Aleksiv revezam os personagens de Antígona ou o filho adolescente e Creonte ou o pai opressor. Creonte (imagem do poder) utiliza uma máscara de látex, ou melhor duas. E é surpreendido por Antígona/atriz: “Vlad, por que duas?”, ao que ele responde: “Ah, improvisos do teatro”. 

Num outro diálogo travado entre a mesa de refeições da família e a estrutura de iluminação do palco, a adolescente se utiliza de hidrocor para escrever no corpo semi-nu dependurado: atriz, poder, anarquismo, opressão. Simultaneamente, a menina retira o Iphone de uma das meias e começa a ouvir o hit 'Mr. lonely' enquanto o pai dispara initerruptamente com cinismo: “Vai limpar esse corpo, corta esse cabelo, para de se pendurar você é uma moça, desliga essa música, aprenda a se portar à mesa, você está parecendo um menino.” VAI, FAÇA, PÁRA, SEJA. “Eu lhe dou as ordens,você escuta.”

Na tragédia grega Antígona é condenada à morte, como penalidade e castigo pela sua desobediência e se pergunta: “(…) cercada de infortúnios como vivo, a morte seria então uma vantagem?”. Ao contrário, no espetáculo da companhia Motus, o fim trágico é destinado a Creonte, que despenca das escadarias do teatro, enquanto 'lonely, i'm Mr lonely, I have nobody' ainda ressoa. Morre de bala perdida enquanto sapateia para a plateia, ressucita e morre novamente de taquicadia. Antígona/atriz assiste. Retira uma das máscaras do 'defunto', a preenche com papel de modo que não seja mais flácida até que se torne um rosto.

Ao fim da peça morre Creonte. O tirano na companhia de si mesmo, abandonado com suas duas cabeças.


Ficha Técnica: 
Concepção e direção: Enrico Casagrande e Daniela Nicolò
Elenco: Silvia Calderoni e Vladimir Aleksic
Trilha sonora: Enrico Casagrande
Produção: Motus
Língua: italiano (com legenda)

domingo, 21 de outubro de 2012

Então me ajuda a segurar essa barra que é gostar de você


Por Mariana Kaoos


Desde pequena, um dos pilares da minha criação enquanto ser humano foi a música. Quando criança, meu pai me ninava com as histórias de pescador que Dorival Caymmi contava nas suas canções, bem como o “Chululu” de Gal Costa e “Lígia” de Tom Jobim. Lembro como se fosse hoje o dia em que ele viajou e trouxe de presente para mim o disco Eu, Tu, Eles, de Gilberto Gil e isso me marcou profundamente. Depois foi uma coletânea de Cazuza, “Livros” de Caetano Veloso e aí vieram tantos outros que posso classificar a minha educação auditiva como algo um pouco diferenciado do que meus amigos na época ouviam.

Sim, por muito tempo dancei É O Tchan, pulei atrás do trio nos carnavais de Ilhéus ao som de Netinho, ia nas barracas de praia e me submetia a ouvir coisas como Só Pra Contrariar. No almoço, por conta da moça que trabalhava em minha casa, Tina, acabava aprendendo a letra de uma ou outra música de Leandro e Leonardo. Mas de fato, todos esses eventos eram esporádicos.  Nunca tive um forte apreço por esse segmento musical considerado pela minha mente pseudo cult (que de cult não tem nada) como “brega”. Quando “adolesci” a intolerância só aumentou. Era rock clássico, reggae, eternamente bossa nova, nunca arrocha. Pagode romântico então, nem pensar.

Pra ser bem sincera, sempre foi muito confortável me colocar numa posição superior por ouvir sons mais refinados e discriminar os outros tantos mortais que se submetiam a ouvir essas músicas e adoravam. Essas pessoas geralmente colocavam faixinhas no cabelo com o nome da banda ou ídolo, no quarto tinham pôsteres colados na parede e constantemente participavam de fã clubes. Decididamente jamais passaria por minha mente, um dia, delirar ouvindo essas mesmas coisas que eu tanto reneguei.

Mas meu coração está preso a você...

Há pouco mais de dois anos, meu pai foi fazer mestrado em Santa Catarina. Como sempre fomos apegados, foi uma época difícil tanto para mim, quanto para minha mãe, que possui um grau de sensibilidade emocional muito mais elevado que o meu. Triste, chorona, cada vez mais calada, ela se trancava no quarto e dormia o fim de semana inteiro. Meu pai se preocupava, sentia saudades e constantemente vinha nos visitar. Em um desses encontros, não lembro qual especificamente, ele olhou para mim e com olhinhos brilhantes afirmou: “eu gosto tanto de sua mãe e fico preocupado com ela. Ela é minha namorada”. Em seguida começou a cantar Vida Cigana, de Raça Negra, e admitiu considera-la uma das mais bonitas músicas que já ouviu.

Naquele mesmo dia li a letra com atenção, ouvi a melodia de olhos fechados e sorri. Da mesma forma que Raça Negra era poesia para meu pai, também virou pra mim. Vida Cigana entrou para o setlist do meu mp4 e até hoje está lá.

Não deixe a chama se apagar...


Raça Negra é um grupo paulista formado em 1983. Seu primeiro álbum, porém, só foi lançado em 1991. A partir de então, eles se tornaram um ícone do pagode romântico. Suas inúmeras músicas fizeram sucesso por décadas e perduram até hoje. “Cheia de Manias”, “Doce Paixão”, “Quando te Encontrei”, “Quero ver você chorar”, “Jeito felino”, são algumas, dos inúmeros sucessos da banda. Recentemente, foi lançado um disco tributo aos ícones da música romântica, o disco Jeito Felindie. Artistas como Letuce, Nevilton, Lulina e Amplexos são alguns dos nomes que compõem o tributo. Cada qual trouxe uma versão muito particular, utilizando das composições originais, mas transformando-as em novas músicas, bonitas e subjetivas.

Todas as composições de Raça Negra tem como foco o amor. Relacionamentos que não deram certo, saudades de algo ou alguém, dificuldades de se envolver com outra pessoa. Transformar em rock esses sentimentos pode ate ter dado um novo ar para a maneira como se fala, mas no fim das contas, a mensagem continua sendo a mesma.

De maneira impressionante, 2012 foi o ano dos tributos. Até agora já rolou homenagem a  Los Hermanos na coletânea Re-Trato; The Strokes com Is This Indie; Caetano Veloso e seus 70 anos de carreira em homenagem internacional A Tribute to Caetano Veloso, isso sem falar nos vários artistas nacionais contemplados na coletânea Brasileiros. O de Raça Negra veio para aumentar esse número. Mas diferente dos outros, Jeito Felindie logo se tornou pop e atingiu distintos segmentos de públicos.

Quero te deixar você não quer...

Atualmente Raça Negra é uma das minhas bandas favoritas. A simplicidade de como as coisas são ditas, os sentimentos que as melodias me causam. Tomando uma cerveja numa tarde ensolarada ou com fones de ouvido no trabalho, venho aprendendo nos últimos tempos a beleza de ser “brega”, de poder cantar bem alto e me assumir romântica. As versões do Tributo, bem como as originais, vem embalando meus maiores momentos de sorriso e sim, hoje quando me percebo como as pessoas que tinha preconceito, me divirto com isso. Estou até pensando em colar um pôster no meu quarto. Quem sabe, quem sabe...

Ouça no blog Viver de Chamego o streamming na íntegra da coletânea. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Sem Gueri-Gueri - O Rebucetê Entrevista: B Negão

Por Rafael Flores

Foto: Rafael Flores
Um ano depois de entrevistar de surpresa o B Negão no Festival Suíça Bahiana, voltamos a nos encontrar. O evento responsável por isso foi o BOOM!!!, que uniu à música outras manifestações, como a vídeo-arte, o skate e o slackline. Foi a primeira apresentação de B Negão & Os Seletores de Frequência, banda que o acompanha desde o início dos anos dois mil, em Vitória da Conquista. A banda é composta ainda por Pedro Selector (trompete e voz), Fábio Kalunga (baixo), Robson Riva (bateria e voz) e Fabiano Moreno (guitarra e voz). O show foi de um peso incrível, nele os mais animados se balançavam enquanto os mais ligados se atentavam aos ritmos e referências, diluídas entre os riffs da guitarra, acompanhada dos marcantes metais e e as gírias empregadas pelo vocalista.

Depois de beber uma água e conversar com uma “feiticeira” que ocupou o camarim, ele se acomodou em uma cadeira semi-acolchoada e nos recebeu. Dentre os assuntos, comentamos sobre a repercussão e distribuição do novo álbum, o “Sintoniza Lá” e suas aventuras em terras britânicas para representar o Brasil. Por fim, ainda comentamos da importância de veículos alternativos de comunicação que estejam em diálogo com outras produções independentes, aberto para qualquer tipo de pergunta, mais uma vez, ele se mostrou um ótimo entrevistado.

O Rebucetê: Houve quase dez anos de hiato entre o primeiro álbum de B negão & Os Seletores de Frequência (Enxugando O Gelo - 2003) e o “Sintoniza Lá” - 2012. Por que tanto tempo?

B Negão: Cara, a distância de tempo foi excesso de trabalho, ao longo desse tempo a gente não deixou de fazer show. Entre 2003 e 2006 fizemos muitas apresentações fora do país, inclusive, com shows em grandes casas de Londres, Barcelona e em festivais pra mais de 70 mil pessoas, como o Roskilde Festival (Dinamarca). E foi apenas em 2006, três anos depois do lançamento do “Enxugando o Gelo” que ele veio pegar no Brasil, então ele foi crescendo, crescendo, cada vez mais gente sabendo da parada e daí rolou uma loucura, fomos fazendo shows e o conhecimento do nosso trabalho foi aumentando eternamente. Comento sempre que o normal de você lançar um disco, de acordo com minha experiencia com todas as bandas, inclusive com o Planet Hemp, é ele dar uma caidinha depois de dois anos, aí você tem que produzir coisa nova, caso contrário não dá pra vender show e tal. O nosso não, começou pequenininho e foi crescendo. E foi em 2010 que percebemos que ele tava mega grande, quando tocamos no primeiro SWU e batemos o recorde de público dos três dias de festival no palco alternativo, com toda a galera cantando. E foi nesse ponto, que os jornalistas começaram a prestar atenção, porque na nossa caminhada estávamos acostumados a ser só a gente, a internet e o público, um caminho meio que silencioso. Aí a grande imprensa chegava e “Caraca, não conhecia o trabalho de vocês”, aí a resposta era “Pois é, cara, tem que se informar”. Outro motivo da demora é a nossa preferência pela falta de patrão, como a gente mesmo faz nossas coisas E a gente não tendo ninguém pra mandar, meu irmão, acabo sendo o cara mais desorganizado do mundo, eu demorei pra caralho de fazer as letras, fazendo e jogando fora, a última eu fiz menos de 24h antes do prazo pro disco poder sair.

Foto: Rafael Flores
OR: E o que esses dez anos trouxeram de diferente para o “Sintoniza Lá”?

BN: A gente tá felizão com o resultado dele, fizemos a parada que sempre tava rolando do metal. O trompete é nossa guitarra solo e o baixo nossa guitarra-base. Teve uma mudança de formação na banda também o longo desse tempo, entrou o Fabio Moreno e o Robson Riva trazendo uma influencia das batidas africanas.

OR: O “Enxugando o Gelo” foi lançado pela revista Outracoisa, que se propunha a incluir a numeração nos produtos fonográficos, um tipo de controle que não é respeitado no Brasil. Como tá sendo a distribuição do novo trabalho?

BN: Então, no “Enxugando o Gelo”, a gente propôs essa parada de incluir a numeração dos discos, coisa que não era feita nas gravadoras brasileiras. Gravadora não é aquela coisa confiável cem por cento, né? Os caras falam que foram vendidos tantos discos seus e não tem como provar, com o disco numerado não, a gente acompanha o processo. Dessa vez a gente fechou a distribuição com a Coqueiro Verde, gravadora independente do Rio de Janeiro, que lançou o Autoramas e outras bandas do cenário. Então eles vão distribuir no Brasil inteiro, fechando com lojas como Fenac, Saraiva, Cultura, que atingem Norte e Sul do país. E foi bom, pois conseguimos com nosso projeto de musica livre fechar só a distribuição, daí podemos colocar nossa música na internet sem problemas.

OR: Sobre sua participação no encerramento dos jogos olímpicos de Londres, como foi a sensação de representar o Brasil?

BN: Foi psicodelia pura, doidera demais. Quando veio o convite eu achei que era um trote, mas achei tão engraçado que resolvi responder os e-mails. Continuei nãoa creditando até rolar a  primeira reunião e encontrar com a Daniela Thomas, diretora, que é uma figura que respeito pra caralho de outros trabalhos. Acabou que quando vi que a parada era real e definimos as músicas e tal, topei. Mas quando chegou em Londres eu fiquei um pouco receoso, vai que essa porra acabe sendo “mó preguiça”, sacou? Vai que eu chego aqui pra mostrar minha cara pro mundo inteiro, e a parada ser um mega “Criança Esperança” e eu vou ficar na merda total, sacou? Até comentei com a galera que tava comigo no dia do primeiro ensaio, que se tivesse feião o negócio iria fingir que estava tendo um treco pra ‘nego’ me substituir, tá ligado? Mas o ensaio foi bom pra caralho, tocamos no mesmo palco que o Queen e o The Who tocaram, parada de maluco. No ensaio tava toda galera que fez a cerimônia nos aplaudindo, foi clássico.

OR: Você chegou a pensar no tamanho da coisa toda? Tipo, de estar ali representando o segmento alternativo da nossa produção cultural, o qual nunca possui tanta mídia assim?

Foto: Ana Paula Marques
BN: Na real, não deu pra ficar pensando muito, que era uma parada pra quatro bilhões de pessoas, foi concentração total. Quando rolou o lance de ganharmos o VMB, foi o mesmo que rolou com as Olímpiadas, assim, onde nunca pensei que fosse ser representado num evento como esse, saca? Foi o mais emocionante de tudo, ver a moçada dizendo “o undergrond tá lá”, sacou? Bem representado e sem “gueri-gueri”, sem escrotidão. Eu voltei dando autógrafo do hotel em Londres até não sei onde. E foi espetacular conviver com aquela galera também, porque uma coisa que acontece sempre aqui no Brasil quando rola evento mundial é esse lance separatista entre estrelas internaconais, etc, com áreas específicas pros gringos. Mas lá fora, a maioria esmagadora desses eventos todo mundo fica junto. Então na mesma fila pra almoçar ‘tava eu, as Spice Girl, o cara do Monty Python, o Bryan May, numa interação total ali. Então é isso, sem gueri-gueri, sem afetação, sem segurança, um lugar tipo esse aqui, um grande exemplo pros produtores que fazem esse tipo de evento no Brasil. Apartheid não tem que rolar mais não.

OR: O Planet Hemp relançou agora seus dois primeiro álbuns em LP e parte para uma mini turnê pelo Brasi, se apresentando também na Bahia. Como é que tá rolando esse re-mergulho na história do grupo?

BN: É isso, muito bem, é um re-mergulho, melhor definição até agora desde que começou  a história toda (risos). Cara, fiquei até assim, meio que sem saber se eu ia ou se eu não ia. Todas as vezes que nego falava sobre isso, era eu que meio que botava a água no chopp. Ainda mais agora num momento super positivo com os Seletores, show pra caralho, disco acontecendo... Só desse trabalho já tem coisas que não consigo dar conta, entendeu? Tanto que você me mandou a entrevista e não consegui responder, porque são vários convites, desde jornais mega-grandes a fanzines e tal. Aí falei “caralho, não vou dar conta, não vou fazer”, mas depois acabei cedendo, conversamos e fechamos em quinze shows. Pra galera que ler essa parada, o show vai ser dia primeiro de dezembro em Salvador aqui na Bahia, mas tá acabando o ingresso, nego tem que se ligar, porque vai ser isso aí e tchau tchau.

Não conhece o B Negão & Os Seletores de Frequência? Fica a dica:


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Rebucetê Entrevista: Dost

Por Ana Paula Marques

Foto: Noite Fora do Eixo Conquista 2012
Erlan Canguçu, Arthur Santana, Ronniê Marques e Luiz Castro: quatro garotos de cidades diferentes, unidos por um único motivo: a vontade de fazer música. Juntos desde o ano de 2010, montaram uma banda em Vitória da Conquista, com um repertório variado, que perpassa desde as músicas autorais até os covers. Perto de fazer o primeiro show fora de Conquista, os meninos falaram em entrevista ao O Rebucetê sobre o novo EP "Quanto Tempo Dura o Eterno" (clique no link para baixar gratuitamente), lançado recentemente no Facebook e sobre as mudanças que a banda passou ao longo das experiências. 

O Rebucetê: A banda atua no cenário underground de Vitória da Conquista há algum tempo e já dividiram o palco com a banda Maglore, que tem um público grande na cidade. Sentem alguma diferença no trabalho de vocês ao longo desse percurso?

Dost - Já faz dois anos desde a criação da banda, nesse tempo muita coisa se passou e acabou interferindo no nosso som. A ideia inicial do que seria a Dost é bem diferente do som que tocamos hoje. Quando fomos tocar com a Maglore, que aliás, foi nosso primeiro show, foi o momento que paramos para montar um repertório, fazer teste e a partir daí, perceber o que se tornaria a Dost. As mudanças vieram de formas naturais, fruto do tempo que vai dando mais maturidade as nossas composições e ao nosso som.


O Rebucetê: De onde vem a inspiração da composição do primeiro EP? Existe algum tipo de significado no título?

D - A inspiração é fruto das relações pessoais de cada autor. Na Dost não temos o costume de compor juntos, por isso, cada música traz um pouco do que a pessoa vive naquele momento. O título foi uma das coisas mais difíceis de decidir, pois teria que representar as músicas nele. "Quanto tempo dura o eterno?" foi escolhido justamente por focar em um dos temas centrais da nossa musica, que é o tempo, as mudanças que ele nos traz como ser humano.


OR: O fato de vocês serem de cidades diferentes já é algo positivo para difusão do trabalho?


D - Sim, o fato de sermos de regiões diferentes faz com que tenhamos uma maior visibilidade. Arthur é mineiro, Erlan e Luiz são baianos e Ronniê é pernambucano. Ao divulgar nosso EP somente entre nossos amigos já atingimos três estados do brasil. Como somos de cidades muito pequenas (Malhada de Pedras - BA, com 9 mil habitantes e Divisa Alegre - MG, com 6 mil habitantes) a aceitação desse estilo musical não é tão grande, porém a ajuda dos amigos é muito importante, ao divulgar a banda na internet. O EP foi lançado há duas semanas e está em uma fase que nossas músicas chegam em lugares cada vez mais longes. Essa semana já teve uma garota de Manaus que curtiu a banda e disse que conheceu a partir de uma indicação de um amigo que mora no Rio de Janeiro, isso nos deixa muito contente porque agente percebe que o EP está tendo uma boa aceitação.

OR: No próximo sábado, 20 de outubro, vocês irão tocar numa casa de shows em Bom Jesus da Lapa, com a banda Dona Iracema. Já podem adiantar o que estão preparando para esse show?

D - Esse próximo show é o primeiro da Dost fora de Vitória da Conquista, o que nos deixa bastante ansiosos. É uma experiência totalmente diferente, local novo, público novo. Nesse show vamos tocar o EP "Quanto tempo dura o eterno" na íntegra e fazer alguns covers que a gente vinha fazendo. Mas já estamos trabalhando num repertório mais autoral para os próximos shows.

A banda Dost toca no próximo sábado, 20 de outubro, às 20:00 h, na Casa da Música, em Bom Jesus da Lapa - Bahia, juntamente com a banda Dona Iracema. Ingressos R$5,00.