A Hallyu, ou Onda Coreana, transformou o K-Pop em um produto de exportação. Ao serem criados, os grupos já são pensados em lançamentos e promoções além-mar, principalmente nos mercados asiáticos da Indonésia, China, Vietnã e, claro, Japão.
Geralmente, tais inserções no mercado japonês consistem (a princípio) em traduções de hits da terra natal. A depender do sucesso comercial destes, as agências passam a investir em material japonês original e até uma nova identidade para o grupo, o que muitas vezes resulta em conceitos e carreira musicais bem diferentes dos originais coreanos.
Essa nova identidade é necessária porque, apesar de cada vez mais se render à Hallyu, o gosto do público japonês é diferente. Enquanto a Coréia do Sul prefere canções radiofônicas que tendem para o lado “fofo” da força, no Japão a coisa é mais obscura, seguindo tendências da música Dance norteamericana e do Europop.
Girls & Peace
Girls’ Generation é hoje o maior grupo do pop coreano. Criado pela agência SM Entertainment, SNSD (sigla de seu nome coreano: So Nyu Shi Dae) estreou em 2007 e, além de dominar as paradas coreanas, é desde 2011 o grupo coreano que mais vendeu álbuns no Japão.
Lançado na semana passada (28 de novembro), Girls’ Generation II ~ Girls & Peace ~ [Nayutawave/Universal Music, 2012], segundo álbum japonês do grupo, estreou na segunda posição da Oricon. E seguindo a tendência de adaptação do K-Pop ao J-Pop, Girls & Peace é um álbum sonoramente mais maduro que a discografia coreana da banda.
Conectada à atual tendência coreana ao Europop, a maioria do “Girls & Peace” é de hits para pista de dança. Canções como Animal, Reflection e Paparazzi seguem todo o livro de regras de divas ocidentais como Kylie Minogue, Ke$ha e Britney Spears. Já as fantásticas I’m A Diamond e T.O.P trazem uma qualidade R&B/Urban ao Dance, lembrando os melhores momentos do álbum Hard Candy [Warner Bros, 2008] de Madonna.
A tradução do álbum fica por conta de Oh! (lançada originalmente em 2010), uma das faixas mais atemporais do grupo, sendo tão viciante em japonês quanto em coreano. O single oficial do álbum, Flower Power, tem o clima contagiante de um sábado à noite com os toques de bizarrice inerentes ao J-Pop (a harmonização vocal da faixa é um show à parte); e a faixa-título Girls & Peace atinge status de perfeição pop, com uma pegada 1980’s, bem New Wave à lá Cindy Lauper, que (como tudo japonês-coreano-enfim-asiático) estranhamente combina com o grupo.
Enquanto Girls & Peace é um álbum melhor que o debut japonês de SNSD (por não soar como uma mera tradução), ele ainda não é a obra-prima pop que o apelo e qualidade do grupo promete. A grande qualidade de Girls’ Generation é de terem seu próprio estilo e classe, mesmo quando seguem tendências; contudo, o problema de seus álbuns é a coerência entre as faixas, soando menos como uma obra completa.
Neste álbum existe uma linha coesiva, em termos de sonoridade, estilo e desempenho; porém, apesar da maturidade de performance das “nove divinas”, poucos riscos são tomados, entregando um trabalho que, mesmo excelente, poderia ser de qualquer estrela pop.
Nota: 4/5
Destaques: Flower Power, Paparazzi, I’m A Diamond, T.O.P, Girls & Peace, Reflection Pule: Not Alone Para: quem não resiste ao culpável prazer de ouvir e gostar de girl groups. Quem curte Pop/Dance.
Dizer que o K-Pop se leva a sério é quase um eufemismo; é óbvio que estes jovens altamente competitivos se levam a sério demais. Mas, como não, se você é criado e programado para ser um semideus?
Por Lucas Oliveira Dantas
O nome do maior grupo da história do K-Pop, DBSK (ou TVXQ!, como é melhor conhecido mundo afora) é um acrônimo de Dong Bang Shin Ki, algo como “os grandes deuses do Oriente” em português. Lançados em 2003 pela SM Entertainment (SMe - a maior de todas as agências de talento/entretenimento da Coréia do Sul), os cinco membros originais do DBSK foram os principais responsáveis pela expansão da Hallyu - “Onda Coreana” - para além dos mares asiáticos; só na Coréia e no Japão, segundo dados da Gaon Charts e da Oricon (espécies de Billboard sul-coreana e japonesa, respectivamente), até outubro deste ano DBSK vendeu mais de 11 milhões de cópias de álbuns, singles e DVDs por toda sua carreira.
Desde seu debut, os rostos, corpos e performances de DBSK fazem parte do mercado publicitário, do imaginário e da cultura pop coreana de maneira definitiva, sendo celebrados ao ponto do endeusamento (como o próprio nome do grupo sugere). Os cinco garotos trabalhavam intensamente para manter essa celebridade que, como expliquei no artigo anterior, são os responsáveis pelo mercado K-Pop. Até que no verão (coreano) de 2009, três deles abriram juntos um processo no Tribunal do Distrito Central de Seul contra a SMe para determinar a validade dos contratos com a agência.
Um dos maiores escândalos da indústria Pop coreana, a corrente briga judicial entre JYJ (novo grupo formado pelos três integrantes “rebeldes” do DBSK) e SMe é um dos principais alarmes de realidade do maravilhoso mundo do K-Pop.
K-Pop Idol
Madonna: ídolo global
A diferença crucial entre ídolos “normais” do pop e os do K-Pop é que, geralmente, os ídolos do ocidente adquirem tal status após sucessões de trabalhos critica e comercialmente aclamados. Mesmo sendo produtos industriais, para artistas chegarem a tal ponto, eles passam por um processo de reconhecimento que requer, especialmente, longevidade e relevância cultural que ultrapassem a ideia/estereótipo de que são apenas manufaturas.
O K-Pop não é completamente diferente, mas a ordem das coisas é diferenciada. Ao contratarem os jovens (trainees), as agências investem na formação de seus talentos para criarem grupos performáticos de excelência praticamente olímpica.
Nestas "academias" artísticas proporcionadas pelas agências, são identificados e desenvolvidos os diversos talentos dos trainees que variam do canto e dança, às artes dramáticas e modelagem. Muitos desses jovens, não estreiam apenas como membros de um grupo, como também participam de doramas (séries/novelas coreanas), são modelos e até mesmo apresentadores de shows de variedade na televisão.
Como, muitas vezes, o processo de treino também é publicizado e comercializado (através de reality shows na TV, Youtube), ao estrearem, os idols já são apresentados como seres de outro mundo, dotados de qualidades especiais, superiores às nossas que, portanto, devemos idolatrá-los (ou seja, consumir avidamente tudo que eles produzem).
Kim Young-min
Segundo o CEO da SMe, Kim Young-min, o custo de descoberta e treinamento de uma das garotas do Girls’ Generation (o maior girl group da atualidade do K-Pop) foi de $2,6 milhões de dólares (mais de R$5 milhões). Deste ângulo, a pressão para o sucesso comercial do grupo é compreensível e o rígido controle das agências sobre os idols se faz óbvio.
Hierarquia
Outro ponto importante para entender o funcionamento da cultura de idols do K-Pop é compreender as relações pessoais coreanas, mesmo que apenas o básico.
Por mais que globalizar a Hallyu seja um dos objetivos-mor do K-Pop - e, por isso, as referências do pop coreanos são globais - a indústria do entretenimento coreana se comunica primária e principalmente com e para coreanos.
Na Coréia do Sul, uma pessoa se torna adulta aos vinte anos. Mesmo adultas, elas são subjugadas a regras de comportamento e hierarquia, tão bem definidos que fazem parte até da estrutura da língua coreana (flexões, conjugações e todo o tipo de palavras estão diretamente ligados a níveis hierárquicos).
Elenco da SMe em coletiva de imprensa da SMTown em Nova York.
Grupos presentes: KANGTA, BoA, TVXQ!, Super Junior, Girls' Generation, SHINee e f(x)
Quando assinam um contrato com uma agência, estas crianças e adolescentes passam tanto tempo entre a escola (que costuma também ser financiada pela agência) e os treinamentos, que seus colegas de agência se tornam como irmãos e os CEOs das agências, pais. Então, se um jovem normal da Coréia do Sul tem sua vida controlada por e reportada a pais e familiares mais velhos, um jovem trainee reporta à família, ao CEO e, posteriormente, ao público.
Eis que, dentro da lógica voraz do capitalismo cultural no qual o K-Pop é inserido, estes produtos têm que ser altamente vendáveis e estas peças da engrenagem devem estar em perfeito funcionamento para, assim, valerem o investimento que lhes foi empregado.
Portanto, idol groups estão sempre subjulgados àquilo que mercadologicamente é necessário para manter a base de fãs fiel e consumidora. (Aliás, os fãs de K-Pop são outro ponto de estudo que será explorado exclusivamente em outro artigo.)
Arte X Mercado
A “arte” de cada grupo é totalmente controlada pela agência que, além de definir o concept (conceito) sob o qual grupo é criado, determina as mudanças de estilo musical e visuais, comportamentos performáticos, tempo de câmera e trabalhos paralelos etc, tudo baseado no mercado/público alvo (principalmente jovens/adolescentes).
AOA (Ace of Angels), concept: anjos que, além de idols,
fazem parte de banda instrumental (AOA Black)
O concept no K-Pop é algo de suma importância, principalmente para diferenciar os boy/girl bands coreanos dos ocidentais. O conceito estético de um grupo coreano determina toda a imagem e trabalho do grupo; é aí que acontece a magia criativa do K-Pop pois, ao invés de apenas cantores, ou dançarinos, os membros de um grupo fazem parte de uma ideia, como se fossem personagens de uma peça, que pode se tornar um nicho dentro do mercado altamente competitivo do K-Pop.
Cada grupo é composto por um líder que, geralmente, é também o vocalista ou rapper principal, um ou dois vocalistas de base, um dançarino principal, um visual ou face - aquele que geralmente é o rosto publicitário do grupo - e um maknae. Em tradução simples para o ocidentalismo, maknae é o membro mais novo de um grupo; só que na cultura coreana isso significa muito mais, devido às questões hierárquicas já citadas.
A grande maioria dos grupos atuais de K-Pop seguem essa fórmula, com pouquíssimas variações, como lideranças rotativas e substituições gradativas de membros.
BigBang: um dos grupos mais vendáveis do K-Pop atual.
G-Dragon (quarto da esquerda para a direita) é um dos mais bem sucedidos
rappers e produtores dentre os idols K-Pop
Poucas agências dão liberdade artística aos grupos e seus membros. Alguns grupos e artistas - como BigBang (YG Entertainment) e BoA (SMe) - detêm participação e poder maior nas decisões de suas carreiras e trabalhos, pelo menos no tocante à música que produzem; tais espaços foram galgados, principalmente, devido ao sucesso comercial que tornou seus nomes em marcas de peso para as agências.
Enquanto isso, há também agências menores como Woolim Entertainment (do grupo Infinite) e a Stardom Entertainment (EvoL e Block B), além da FNC Music - subsidiária da Mnet Media(grande companhia de entretenimento coreano) -, que são reconhecidas por treinarem seus idols para que eles tenham maior participação no processo produtivo dos grupos.
Exceções dentro de um universo perfeitamente programado e controlado, como a linha de produção de uma fábrica.
Por se subjugar assim a padrões rígidos de produção e vendagem, o K-Pop (assim como o Pop em geral) sofre o preconceito de ser uma arte de baixo escalão, por estar principalmente ligada à lógica de mercado e consumo, ao invés das reflexões e transformações estéticas.
O que, sob este ponto, é verdade. Mas, ao descartá-lo, negligencia-se a excelência performática destes artistas, assim como a de compositores e produtores responsáveis pelas canções e, principalmente, as possíveis expressões da indústria cultural e midiática.
Em junho de 2011, um quarteto sul-coreano chamado 2NE1 lançou um single – I Am The Best – que seria o grande divisor de águas do meu gosto, apreço e até devoção pela música e cultura Pop.
Por Lucas Oliveira Dantas
A minha maior dificuldade em falar e escrever sobre o K-Pop (Korean Pop) era responder à pergunta um tanto idiota (com o perdão pela honestidade brutal): “por que gostar de K-Pop?” Não sou dos que pregam que gosto não se discute: tudo pode ser discutido, desde que se saiba de antemão que há limites.
Eu ainda não sabia explicar meu limite com o K-Pop. Porque veja bem, à primeira vista/audição, o “K” do K-Pop não passa de um preciosismo, já que musical e visualmente o Korean Pop é muito parecido/igual ao Pop ocidental, seguindo as mesmas tendências norte-americanas e europeias, ao invés de defini-las e influenciá-las, como o Pop japonês foi capaz há alguns anos.
Se as semelhanças são tantas, eu não entendia o motivo do escárnio presente na pergunta; não entendia porque o gosto pelo pop sul-coreano estava renegado à caixa dos prazeres culposos – daqueles que você admite pra poucos ou apenas pro seu analista. Porque, se gosto não se discute, quem você pensa que é para questionar meu gosto por algo?
Eu já fui um desses espíritos de porco questionadores do nada. Até que ao final do ano passado eu caí na raia maravilhosa de uma batida - muito parecida com as club-bangers/floor-filler de Britney Spears - cantada numa língua estranha, mas com um refrão tão infeccioso que se sentia universal, seja lá o que quisesse dizer, não conseguia parar de cantar: NEGATCHÊ TCHALAGÁ!
Linha de Produção
Largar de babaquice e me assumir como um fã de K-Pop demorou um tempo. De lá para cá, tento acompanhar os lançamentos em enchentes desta indústria.
A grande singularidade do K-Pop está intimamente ligada à sua forma de produção. Em suma, a indústria mainstream do Pop coreano não está à busca de talentos auto formados que, por sua vez, buscam em algum momento da carreira um contrato com a alguma gravadora para a maior distribuição de seu trabalho.
Girls' Generation
De maneira resumida, no K-Pop há agências de talentos que estão sempre fazendo audições e contratando jovens. Estes, geralmente, são contratados ainda na infância (a partir dos 12 anos, alguns até mais novos) - tornando-se trainees - e são treinados em diversas áreas das artes performáticas: dança, canto, cênicas e até modelagem.
Os setores criativos das agências têm ideias e criam conceitos para algum grupo a ser lançado no mercado e selecionam, dentre esses trainees, os que melhores se encaixam nesses conceitos. Da audição à estréia, alguns jovens passam até mais de dez anos em treinamento. Essa é a fórmula geral para a criação de um grupo pop na indústria do K-Pop.
Mas como produtos tão manipulados conseguem ter tanto sucesso comercial e estético? As experiências ocidentais nos idos e fins dos anos 1990 não foram muito frutíferas: Spice Girls, Backstreet Boys, N’Sync e muitos outros tiveram grande sucesso comercial e cultural mundo afora, mas todos sucumbiram e desapareceram; fosse porque apenas um ou dois membros se destacavam (Justin Timberlake) ou simplesmente porque o interesse do público mudava para as divas teens (Britney, Christina Aguilera etc).
A eficiência e sucesso dos produtos do Pop coreano têm tudo a ver com a cultura rígida e disciplinada do Oriente. Se há algo que, para nós ocidentais, não precisa de muito estudo para perceber, é que orientais têm um senso de disciplina e conjunto centenas de vezes superior ao nosso.
São culturas milenares que resguardam muitas tradições e práticas, mesmo passando e acompanhando as milhares de mudanças das sociedades.
Então, os membros de um grupo coreano são apenas peças de um produto que não os pertence. Os conceitos, canções e imagens dos grupos não pertencem a seus membros e, sim, às agências; poucas são as agências que dão liberdade artística a seus grupos e poucos são estes que conseguem liberdades neste processo.
Resumindo, tudo é mercadologicamente pensado, programado e manufaturado para te conquistar e possuir.
Negatchê Tchalagá = Naega Jeil Jal Naga = I Am The Best
Óbvio que a música e até mesmo o pop coreanos não se resumem ao K-Pop - tudo na vida tem seu "alternativo". Mas, para os amantes da cultura Pop em geral, o K-Pop é um prato cheio e suculento. Especialmente por causa de seu tempero, a estética cultural sul-coreana obcecada pela perfeição.
Super Junior
Nos MVs (video clipes) de K-Pop, grupos de quatro a nove - às vezes treze, acredite - jovens cantam e dançam em perfeita sincronia, coreografias truncadas mas que, assim como os refrões chiclete das canções, contêm elementos fáceis, altamente copiáveis.
Todos os grandes hits do K-Pop no Youtube, como I Am The Best (2NE1), Gee (Girls’ Generation), Gangnam Style (PSY) etc seguem essa fórmula em algum nível, tornando-se sucesso porque cativaram o público com coreografias fáceis e icônicas.
Essa combinação de canções grudentas e coreografias cativantes, executadas por grupos de jovens terrivelmente belos, atraentes e talentosos fazem dos grupos de K-Pop superiores a qualquer coisa parecida feita pelo ocidente.
Ao comparar um vídeo de performance dos Backstreet Boys com qualquer um de Shinee (vídeo), você tem pena, sério, dos Backstreet Boys, por mais que se reconheça sua qualidade e talento.
Como dizem os Nerds/Hipsters, K-Pop é um nível de Pop que é “só para os fortes”. Pode-se apreciar as batidas, uma e outra melodia fácil, mas daí a mergulhar no maravilhoso mundo caramelizado e esteticamente simétrico do K-Pop requer um gosto muito grande pelo gênero.
Ainda assim, como o nome do grupo 2NE1 significa por extenso “to anyone” - “para qualquer um” -, o K-Pop é produzido para ser fácil e palatável aos olhos e ouvidos de todos, sem muitas pretensões filosóficas. Compreender a beleza e extrair a filosofia disso tudo que é o grande barato.