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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Diamante Fake: "Unapologetic" - Rihanna

Rihanna é uma das cantoras pop mais produtivas desta geração. O que nem sempre significa qualidade. Em seu novo trabalho, "Unapologetic", Rihanna supera a farofa do álbum anterior, mas ainda precisa tirar férias.

Unapologetic (Def Jam, 2012)
Rihanna

Por Lucas Oliveira Dantas


Está na Bíblia: “a cada doze meses a terra será assolada por mais um lançamento de Rihanna.”

Juro que adoraria passar um ano acompanhando Rihanna para todos os lados. A profusão de álbuns a sair da cachola dela é impressionante; apesar de não ser do meu gosto enquanto fã de música, fico ao menos curioso em saber desse processo criativo.

Pois, se há algo que me incita nessa linha de produção, é o quanto Rihanna muda a cada álbum, mas mantém-se perfeitamente reconhecível.

Claro que nem sempre ela é bem sucedida: ano passado, por exemplo, ao lançar “We Found Love” (Talk That Talk, Def Jam, 2011) sua colaboração com o (agora) badaladíssimo DJ e produtor britânico, Calvin Harris, parecia que ela manteria o ritmo grandioso e excitante do álbum anterior. Mas, quando o conjunto da obra [o álbum] se revelou uma grande bagunça enjoada, a pergunta era inevitável: será que Rihanna não deveria tirar umas férias?

Unapologetic

Mas não! Óbvio que em 2012 Rihanna lançaria outro álbum e Unapologetic (Def Jam, 2012) não exclui a pergunta acima, mas é bem melhor que seu esforço do ano passado.

“Unapologetic” soa emocionalmente mais honesto, se aproximando de seu maravilhoso Rated R (Def Jam, 2009). Mas, em termos musicais, é como se Rihanna ainda não conseguisse encontrar a unidade e equilíbrio em seu modus operandi de produção. Enquanto há momentos interessantes - em que ela se permite a uma experimentação (mesmo que fake, por se tratar de imitações apropriações) -, há outros bem decepcionantes.

A grande característica de toda Diva Pop é sua capacidade de copiar e se moldar aos estilos propostos a cada trabalho.

Se formos analisar o quesito “apropriação”, Rihanna é a MELHOR Diva Pop desta geração. Ao contrário de outras tantas mainstream afora (*COF* Lady Gaga *COF*), ela assume estilos musicais e os torna dela. Talvez porque, sabiamente, escolhe estilos mais alheios ao conhecimento geral.

Quando ela usa, neste álbum, a atmosfera sexual, tensa e sombria do rapper indie canadense The Weeknd, ela dá os melhores momentos do álbum, como em “Loveeeeeee Song” e “Jump”.

Aliás, The Weeknd deve ter sido o santo pelo qual Rihanna rezou todos os dias enquanto produzia esse álbum.

Depois, ela vai lá e caga tudo com porqueiras genéricas como “Right Now” (alguém POR FAVOR mate a carreira de David Guetta!), “What Now” e “Fresh Off The Runway”. Esta última, por exemplo, começa com um BANG e se arrasta com um FUEN! Muito parecido com o álbum no geral.

“Nobody’s Business”, o famigerado dueto com Chris Brown – o namorado que lhe desceu o cacete (trocadilho intencional)  – é a MELHOR música de todo o álbum. A pegada house dos anos 1990 é maravilhosa, lembrando de longe o trabalho de Madonna em 1992 (Erotica, o álbum) e outros de Michael Jackson, como “Remember The Time” e a icônica “Keep It In The Closet”; e a performance de Brown é tão maravilhosa (e infinitamente superior à de Rihanna) que você se sente meio culpado por estar gostando. (Sim, é difícil perdoar, mas “it ain’t nobody’s business”).

Mas, se você sabe um pouco da cena Pop de 2011 para cá (além dos grandes palcos dos quais Rihanna faz parte), conhece o trabalho de Azealia Banks e como ela tem ressuscitado e soprado divinamente vida neste gênero musical. Então, PALMAS para Rihanna por canalizar tão bom trabalho, mas Azealia e todos aqueles que já conhecem o seu e outros trabalhos estão dando risocas irônicas por dentro.


Linearidade vocal

Pop bitches têm a necessidade de lançar baladas que, muitas vezes, são apenas para demonstrar seu potencial vocal. O que pode ser uma armadilha, pois geralmente a potência vem com uma performance tão genérica em termos musicais e bem meia-boca em termos vocais. Você ouve as notas serem alcançadas, mas com entrega emocional pífia.

Só que Rihanna sempre foi uma artista inteligente, escolhendo e produzindo canções que se melhor encaixavam em suas limitações, estilo e, principalmente, no trabalho que lançava. Suas baladas não saíam dessa lógica, sendo sempre fantásticas em atmosfera – basta escutar canções como “Skin” (Loud, 2010) e a icônica “Russian Roulette” (Rated R, 2009).



Assim como como em seu álbum de 2009, o primeiro single de “Unapologetic” foi uma balada, “Diamonds”. Composta pela nova queridinha das divas pop americanas, a australiana Sia, a canção é mais uma perfeita imitação de Rihanna. Ela imita Sia com maestria e perfeição e se, a princípio, o resultado é decepcionante (ainda mais se você já conhece o trabalho da australiana), com o tempo a coisa fica até agradável.

A principal balada do álbum é “Stay” e é nela que Rihanna escorrega. Enquanto a letra carrega bela força emocional sobre um relacionamento conturbado e destrutivo, a força emocional fica por conta de Mikky Ekko - co-autor e vocalista convidado da faixa -, pois Rihanna mantém uma linearidade vocal insípida. Ou seja, a balada se faz completamente desnecessária no conjunto da obra.

Como mencionei acima, o grande trunfo de Rihanna é que, de todas as suas contemporâneas, ela é que soa mais verdadeira a cada álbum, mesmo que suas experimentações soem deslocadas e forçadas. Porém, em “Unapologetic”, ela entrega um bom produto, no qual ao invés de descartar pela pressa em produzir e lançar (Talk That Talk), você genuinamente deseja que ela tivesse se permitido mais tempo para o cozinhar e burilar melhor.

Nota: 3,5/5
Destaques: Loveeeeeee Song, Jump, Diamonds, Love Without Tragedy-Mother Mary, No Love Allowed.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Lotus" - Christina Aguilera


Com Lotus, Christina Aguilera melhora mas não se revigora, sendo mais um atestado de como a artista norte-americana se esforça demais.

Por Lucas Oliveira Dantas

"Lotus"
Christina Aguilera
RCA
De todas as artistas Pop, Christina Aguilera é única que eu realmente sinto algo próximo de “pena”. Por mais que ela tente e se esforce (muitas vezes genuinamente), ela sempre acaba soando como uma copycat - imitadora.

Neste novo álbum, Lotus, além de Madonna (duh!), ela tenta ser, Florence and the “Boring” Machine, indie pop, mas, o pior (ou “melhor”, se preferir) é quando ela vira copycat de si mesma.

Não há exatamente um problema nisso; grandes divas do Pop estão o tempo inteiro se auto referenciando em seus trabalhos - a já mencionada Madonna, desde seu álbum American Life (2003), volta para si mesma em temas e sons. Só que dessa auto reflexão, geralmente, saem interessantes resultados e novas perspectivas não só sobre a artista, mas também seu contexto na cultura pop (novamente, Madonna, em 2008, voltou a falar de sexo e pistas de dança em seu álbum Hard Candy, gerando uma discussão, para melhor ou para ruim, sobre o comportamento da mulher de 50 na sociedade do século XXI).

Só que a mente de Christina Aguilera, infelizmente, é bem menos brilhante do que ela faz parecer e ainda menos do que seus fãs gostariam.

Lotus

Ela inicia o álbum com uma intro que soa promissora: vocais editados e multiplicados dão o efeito etéreo do conceito da flor que nasce da lama pantanal; a gaita de fole contribui para o processo. Mas a coisa que deveria ser uma introdução, começa a dar loops entediantes, não se comparando em nada com a precisão eficiente de outras introduções, como Stripped Intro, de 2002.

A auto indulgência continua com Army of Me (quem viajou-na-maionese que seria um cover do clássico de Björk põe a mão aqui!). Em miúdos, “Army of Me” é igual a Fighter (2002) - ela, obviamente, cita a canção no refrão. Mas, por alguma razão, a música é boa e você consegue esquecer, depois de algumas audições, a chatice da letra.

Aliás, essa mania das atuais divas pop de soarem oh tão profundas e inteligentes é que tem sido meu principal problema com o mainstream Pop atual.

Se você vai falar o quão fodona você é, me diga de forma interessante - seja com versos longos e truncados a lá Alanis Morissette, ou com figuras de linguagem ricas como as de Björk. Ou até com a simplicidade direta de Madonna e Cyndi Lauper. Senão, mantenha-se à sua ignorância a lá Britney Spears.

Mais para frente tem o mimimi de baladas longas demais, gritadas demais e, bem... chatas demais. Sing for me é a cereja do sundae das pobres e solitárias divas pop, tão maravilhosas, ricas e amadas, mas coitadas, solitárias... você já está golfando?

Tem mais, Blank Page tem a mesma vibe. É uma piano-balada com uma pegada folk nos vocais que, felizmente, não é recheada de melismas insuportáveis. Aliás, ainda bem que Aguilera chutou Linda Perry para este trabalho, o mundo não aguentaria outra tentativa de Beautiful.

E falando em folk, ela atinge total status “country strong” em Just a Fool, dueto com seu colega de The Voice Black Shelton - provavelmente a melhor faixa de todo o álbum, por ser uma balada simples e honesta.

O ponto alto, só que ao contrário, é quando ela canaliza a teatralidade de Florence and the Machine, em Cease Fire e sua bateria em ritmo marcial, mas morre na praia do tédio assim que a canção chega ao refrão.

Mas, na realidade, Lotus é um bom álbum. Não chega aos pés de suas obras-primas - o debut de 1999 e Stripped - mas é infinitamente melhor que seu último esforço solo, Bionic (2010).

Pelo menos em Lotus ela manteve-se próxima a compositores e produtores que seriam capazes de dar-lhe bons hits (Max Martin, Shellback, Sia Furler e Steve Robson), ao invés de fazê-la soar como uma patricinha abestalhada tentando ser bebona e junkie (oi, Ladytron e Le Tigre?).

Apesar das baladas enjoadas e da presunção generalizada, Christina Aguilera consegue ser divertida na maior parte do álbum, como no lead-single Your Body e em faixas como Red Hot Kinda Love, Let There Be Love e Circles. E, como de costume nos lançamentos do Pop atual, as faixas mais interessantes são lançadas na versão deluxe - Light Up The Sky e Empty Words.


Lotus é um álbum que, como muito da carreira de Christina Aguilera, tem elementos interessantes e promissores, mas o produto final é bem menos que a expectativa gerada.

Christina Aguilera tem dito por aí em entrevistas que Bionic será um álbum aclamado no futuro; mas, ela deveria parar de tentar justificar seus tropeços e focar em cuidar do bom trabalho que tem em mãos.

Afinal, é devido a essa mania de grandeza em ser extremamente relevante para a produção musical e história do Pop que ela abocanha mais do que pode e Lotus, então, não é mais do daquilo que promete.

Nota: 3/5
Destaques: Your Body, Army of Me, Red Hot Kinda Love, Just a Fool, Light Up The Sky

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Por Que K-Pop? #2 - Fábrica de Semideuses

DBSK em sua formação original

Dizer que o K-Pop se leva a sério é quase um eufemismo; é óbvio que estes jovens altamente competitivos se levam a sério demais. Mas, como não, se você é criado e programado para ser um semideus?

Por Lucas Oliveira Dantas

O nome do maior grupo da história do K-Pop, DBSK (ou TVXQ!, como é melhor conhecido mundo afora) é um acrônimo de Dong Bang Shin Ki, algo como “os grandes deuses do Oriente” em português. Lançados em 2003 pela SM Entertainment (SMe - a maior de todas as agências de talento/entretenimento da Coréia do Sul), os cinco membros originais do DBSK foram os principais responsáveis pela expansão da Hallyu - “Onda Coreana” - para além dos mares asiáticos; só na Coréia e no Japão, segundo dados da Gaon Charts e da Oricon (espécies de Billboard sul-coreana e japonesa, respectivamente), até outubro deste ano DBSK vendeu mais de 11 milhões de cópias de álbuns, singles e DVDs por toda sua carreira.

Desde seu debut, os rostos, corpos e performances de DBSK fazem parte do mercado publicitário, do imaginário e da cultura pop coreana de maneira definitiva, sendo celebrados ao ponto do endeusamento (como o próprio nome do grupo sugere). Os cinco garotos trabalhavam intensamente para manter essa celebridade que, como expliquei no artigo anterior, são os responsáveis pelo mercado K-Pop. Até que no verão (coreano) de 2009, três deles abriram juntos um processo no Tribunal do Distrito Central de Seul contra a SMe para determinar a validade dos contratos com a agência.

Um dos maiores escândalos da indústria Pop coreana, a corrente briga judicial entre JYJ (novo grupo formado pelos três integrantes “rebeldes” do DBSK) e SMe é um dos principais alarmes de realidade do maravilhoso mundo do K-Pop.

K-Pop Idol

Madonna: ídolo global
A diferença crucial entre ídolos “normais” do pop e os do K-Pop é que, geralmente, os ídolos do ocidente adquirem tal status após sucessões de trabalhos critica e comercialmente aclamados. Mesmo sendo produtos industriais, para artistas chegarem a tal ponto, eles passam por um processo de reconhecimento que requer, especialmente, longevidade e relevância cultural que ultrapassem a ideia/estereótipo de que são apenas manufaturas.

O K-Pop não é completamente diferente, mas a ordem das coisas é diferenciada. Ao contratarem os jovens (trainees), as agências investem na formação de seus talentos para criarem grupos performáticos de excelência praticamente olímpica. 

Nestas "academias" artísticas proporcionadas pelas agências, são identificados e desenvolvidos os diversos talentos dos trainees que variam do canto e dança, às artes dramáticas e modelagem. Muitos desses jovens, não estreiam apenas como membros de um grupo, como também participam de doramas (séries/novelas coreanas), são modelos e até mesmo apresentadores de shows de variedade na televisão.

Como, muitas vezes, o processo de treino também é publicizado e comercializado (através de reality shows na TV, Youtube), ao estrearem, os idols já são apresentados como seres de outro mundo, dotados de qualidades especiais, superiores às nossas que, portanto, devemos idolatrá-los (ou seja, consumir avidamente tudo que eles produzem).


Kim Young-min
Segundo o CEO da SMe, Kim Young-min, o custo de descoberta e treinamento de uma das garotas do Girls’ Generation (o maior girl group da atualidade do K-Pop) foi de $2,6 milhões de dólares (mais de R$5 milhões). Deste ângulo, a pressão para o sucesso comercial do grupo é compreensível e o rígido controle das agências sobre os idols se faz óbvio.

Hierarquia

Outro ponto importante para entender o funcionamento da cultura de idols do K-Pop é compreender as relações pessoais coreanas, mesmo que apenas o básico.

Por mais que globalizar a Hallyu seja um dos objetivos-mor do K-Pop - e, por isso, as referências do pop coreanos são globais - a indústria do entretenimento coreana se comunica primária e principalmente com e para coreanos.

Na Coréia do Sul, uma pessoa se torna adulta aos vinte anos. Mesmo adultas, elas são subjugadas a regras de comportamento e hierarquia, tão bem definidos que fazem parte até da estrutura da língua coreana (flexões, conjugações e todo o tipo de palavras estão diretamente ligados a níveis hierárquicos).

Elenco da SMe em coletiva de imprensa da SMTown em Nova York.
Grupos presentes: KANGTA, BoA, TVXQ!, Super Junior, Girls' Generation, SHINee e f(x)

Quando assinam um contrato com uma agência, estas crianças e adolescentes passam tanto tempo entre a escola (que costuma também ser financiada pela agência) e os treinamentos, que seus colegas de agência se tornam como irmãos e os CEOs das agências, pais. Então, se um jovem normal da Coréia do Sul tem sua vida controlada por e reportada a pais e familiares mais velhos, um jovem trainee reporta à família, ao CEO e, posteriormente, ao público.

Eis que, dentro da lógica voraz do capitalismo cultural no qual o K-Pop é inserido, estes produtos têm que ser altamente vendáveis e estas peças da engrenagem devem estar em perfeito funcionamento para, assim, valerem o investimento que lhes foi empregado.

Portanto, idol groups estão sempre subjulgados àquilo que mercadologicamente é necessário para manter a base de fãs fiel e consumidora. (Aliás, os fãs de K-Pop são outro ponto de estudo que será explorado exclusivamente em outro artigo.)

Arte X Mercado

A “arte” de cada grupo é totalmente controlada pela agência que, além de definir o concept (conceito) sob o qual grupo é criado, determina as mudanças de estilo musical e visuais, comportamentos performáticos, tempo de câmera e trabalhos paralelos etc, tudo baseado no mercado/público alvo (principalmente jovens/adolescentes).

AOA (Ace of Angels), concept: anjos que, além de idols,
fazem parte de banda instrumental (AOA Black)

O concept no K-Pop é algo de suma importância, principalmente para diferenciar os boy/girl bands coreanos dos ocidentais. O conceito estético de um grupo coreano determina toda a imagem e trabalho do grupo; é aí que acontece a magia criativa do K-Pop pois, ao invés de apenas cantores, ou dançarinos, os membros de um grupo fazem parte de uma ideia, como se fossem personagens de uma peça, que pode se tornar um nicho dentro do mercado altamente competitivo do K-Pop.

Cada grupo é composto por um líder que, geralmente, é também o vocalista ou rapper principal, um ou dois vocalistas de base, um dançarino principal, um visual ou face - aquele que geralmente é o rosto publicitário do grupo - e um maknae. Em tradução simples para o ocidentalismo, maknae é o membro mais novo de um grupo; só que na cultura coreana isso significa muito mais, devido às questões hierárquicas já citadas.

A grande maioria dos grupos atuais de K-Pop seguem essa fórmula, com pouquíssimas variações, como lideranças rotativas e substituições gradativas de membros.

BigBang: um dos grupos mais vendáveis do K-Pop atual.
G-Dragon (quarto da esquerda para a direita) é um dos mais bem sucedidos
rappers e produtores dentre os idols K-Pop
Poucas agências dão liberdade artística aos grupos e seus membros. Alguns grupos e artistas - como BigBang (YG Entertainment) e BoA (SMe) - detêm participação e poder maior nas decisões de suas carreiras e trabalhos, pelo menos no tocante à música que produzem; tais espaços foram galgados, principalmente, devido ao sucesso comercial que tornou seus nomes em marcas de peso para as agências.

Enquanto isso, há também agências menores como Woolim Entertainment (do grupo Infinite) e a Stardom Entertainment (EvoL e Block B), além da FNC Music - subsidiária da Mnet Media (grande companhia de entretenimento coreano) -, que são reconhecidas por treinarem seus idols para que eles tenham maior participação no processo produtivo dos grupos.

Exceções dentro de um universo perfeitamente programado e controlado, como a linha de produção de uma fábrica.

Por se subjugar assim a padrões rígidos de produção e vendagem, o K-Pop (assim como o Pop em geral) sofre o preconceito de ser uma arte de baixo escalão, por estar principalmente ligada à lógica de mercado e consumo, ao invés das reflexões e transformações estéticas.

O que, sob este ponto, é verdade. Mas, ao descartá-lo, negligencia-se a excelência performática destes artistas, assim como a de compositores e produtores responsáveis pelas canções e, principalmente, as possíveis expressões da indústria cultural e midiática.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Por que K-Pop? #1 - Negatchê Tchalagá!


2NE1

Em junho de 2011, um quarteto sul-coreano chamado 2NE1 lançou um single – I Am The Best – que seria o grande divisor de águas do meu gosto, apreço e até devoção pela música e cultura Pop.

Por Lucas Oliveira Dantas

A minha maior dificuldade em falar e escrever sobre o K-Pop (Korean Pop) era responder à pergunta um tanto idiota (com o perdão pela honestidade brutal): “por que gostar de K-Pop?” Não sou dos que pregam que gosto não se discute: tudo pode ser discutido, desde que se saiba de antemão que há limites.

Eu ainda não sabia explicar meu limite com o K-Pop. Porque veja bem, à primeira vista/audição, o “K” do K-Pop não passa de um preciosismo, já que musical e visualmente o Korean Pop é muito parecido/igual ao Pop ocidental, seguindo as mesmas tendências norte-americanas e europeias, ao invés de defini-las e influenciá-las, como o Pop japonês foi capaz há alguns anos.

Se as semelhanças são tantas, eu não entendia o motivo do escárnio presente na pergunta; não entendia porque o gosto pelo pop sul-coreano estava renegado à caixa dos prazeres culposos – daqueles que você admite pra poucos ou apenas pro seu analista. Porque, se gosto não se discute, quem você pensa que é para questionar meu gosto por algo?

Eu já fui um desses espíritos de porco questionadores do nada. Até que ao final do ano passado eu caí na raia maravilhosa de uma batida - muito parecida com as club-bangers/floor-filler de Britney Spears - cantada numa língua estranha, mas com um refrão tão infeccioso que se sentia universal, seja lá o que quisesse dizer, não conseguia parar de cantar: NEGATCHÊ TCHALAGÁ!

Linha de Produção

Largar de babaquice e me assumir como um fã de K-Pop demorou um tempo. De lá para cá, tento acompanhar os lançamentos em enchentes desta indústria.

A grande singularidade do K-Pop está intimamente ligada à sua forma de produção. Em suma, a indústria mainstream do Pop coreano não está à busca de talentos auto formados que, por sua vez, buscam em algum momento da carreira um contrato com a alguma gravadora para a maior distribuição de seu trabalho.
Girls' Generation

De maneira resumida, no K-Pop há agências de talentos que estão sempre fazendo audições e contratando jovens. Estes, geralmente, são contratados ainda na infância (a partir dos 12 anos, alguns até mais novos) - tornando-se trainees - e são treinados em diversas áreas das artes performáticas: dança, canto, cênicas e até modelagem.

Os setores criativos das agências têm ideias e criam conceitos para algum grupo a ser lançado no mercado e selecionam, dentre esses trainees, os que melhores se encaixam nesses conceitos. Da audição à estréia, alguns jovens passam até mais de dez anos em treinamento. Essa é a fórmula geral para a criação de um grupo pop na indústria do K-Pop.

Mas como produtos tão manipulados conseguem ter tanto sucesso comercial e estético? As experiências ocidentais nos idos e fins dos anos 1990 não foram muito frutíferas: Spice Girls, Backstreet Boys, N’Sync e muitos outros tiveram grande sucesso comercial e cultural mundo afora, mas todos sucumbiram e desapareceram; fosse porque apenas um ou dois membros se destacavam (Justin Timberlake) ou simplesmente porque o interesse do público mudava para as divas teens (Britney, Christina Aguilera etc).

A eficiência e sucesso dos produtos do Pop coreano têm tudo a ver com a cultura rígida e disciplinada do Oriente. Se há algo que, para nós ocidentais, não precisa de muito estudo para perceber, é que orientais têm um senso de disciplina e conjunto centenas de vezes superior ao nosso.

São culturas milenares que resguardam muitas tradições e práticas, mesmo passando e acompanhando as milhares de mudanças das sociedades.

Então, os membros de um grupo coreano são apenas peças de um produto que não os pertence. Os conceitos, canções e imagens dos grupos não pertencem a seus membros e, sim, às agências; poucas são as agências que dão liberdade artística a seus grupos e poucos são estes que conseguem liberdades neste processo.

Resumindo, tudo é mercadologicamente pensado, programado e manufaturado para te conquistar e possuir.

Negatchê Tchalagá = Naega Jeil Jal Naga = I Am The Best

Óbvio que a música e até mesmo o pop coreanos não se resumem ao K-Pop - tudo na vida tem seu "alternativo". Mas, para os amantes da cultura Pop em geral, o K-Pop é um prato cheio e suculento. Especialmente por causa de seu tempero, a estética cultural sul-coreana obcecada pela perfeição.

Super Junior
Nos MVs (video clipes) de K-Pop, grupos de quatro a nove - às vezes treze, acredite - jovens cantam e dançam em perfeita sincronia, coreografias truncadas mas que, assim como os refrões chiclete das canções, contêm elementos fáceis, altamente copiáveis.

Todos os grandes hits do K-Pop no Youtube, como I Am The Best (2NE1), Gee (Girls’ Generation), Gangnam Style (PSY) etc seguem essa fórmula em algum nível, tornando-se sucesso porque cativaram o público com coreografias fáceis e icônicas.

Essa combinação de canções grudentas e coreografias cativantes, executadas por grupos de jovens terrivelmente belos, atraentes e talentosos fazem dos grupos de K-Pop superiores a qualquer coisa parecida feita pelo ocidente.

Ao comparar um vídeo de performance dos Backstreet Boys com qualquer um de Shinee (vídeo), você tem pena, sério, dos Backstreet Boys, por mais que se reconheça sua qualidade e talento.


Como dizem os Nerds/Hipsters, K-Pop é um nível de Pop que é “só para os fortes”. Pode-se apreciar as batidas, uma e outra melodia fácil, mas daí a mergulhar no maravilhoso mundo caramelizado e esteticamente simétrico do K-Pop requer um gosto muito grande pelo gênero.

Ainda assim, como o nome do grupo 2NE1 significa por extenso “to anyone” - “para qualquer um” -, o K-Pop é produzido para ser fácil e palatável aos olhos e ouvidos de todos, sem muitas pretensões filosóficas. Compreender a beleza e extrair a filosofia disso tudo que é o grande barato.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Henshin Call

Da vingança dos Nerds à transformação da cultura Otaku: o Henshin 2012 em Vitória da Conquista foi um sucesso.

Por Lucas Oliveira Dantas

Foto: Purki

Naruto, Dragon Ball.

Pokémon!

Cavaleiros do Zodíaco!

Death Note, One Piece, Mortal Kombat.

Foto: Purki
Quando a garota vestida de Mário Zumbi fez a simulação do Super Mario Bros., um dos jogos de vídeo game mais amados da história, a plateia que lotava o teatro do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima veio abaixo. Tosco? Muito! Mas, acima de tudo, extremamente divertido e excitante!

A grande maioria dos personagens, mangás, animes e games citados naquele desfile de cosplays e “cospobres”, encerrando o 4º Henshin de Vitória da Conquista, me era completamente estranha. Mas, a empolgação da galera a cada chamada era suficiente para adorar aquilo, mais do que minha obrigação jornalística de acompanhar o evento até o fim.

Nunca fui muito afeito à cultura japonesa e só fui descobrir o significado da palavra otaku este ano; minha infância e adolescência foram muito mais “Caça Talentos” e “Malhação”. Mas e daí? Um dos principais preconceitos contra quem curte a cultura de games, mangás/animes e quadrinhos é de que são pessoas que não tiveram infância, ou estão nelas para sempre. Pode ser que sim, mas, de uma certa forma, todos nós temos uns recalques da infância, cristalizados, que levamos até o fim da vida.

E foi isso: a julgar pela empolgação e alegria dos otakus, recalques pareciam distantes desse povo. Talvez porque agora a cultura oriental, em especial a japonesa, esteja não só em voga como em puro auge no mainstream. Ou talvez porque eventos otakus oferecem a zona de conforto de ter seus pares como maioria.

A verdade é que nos dois dias de Henshin, o repórter aqui não só se viu deslumbrado com a despreocupação dessa galera em parecer ridícula aos olhos do mundo, como, em muitos momentos, desejou ser tão “ridículo” quanto.

Foto: Purki

Henshin Call

Foto: Purki
A palavra “henshin” significa transformação em japonês. No universo dos mangás, é quando o personagem se transforma em super-herói. Ao descobrir a história do evento conquistense, entendi porque ele naturalmente se chama Henshin.

Como toda boa iniciativa, ela surgiu do encontro de amigos com o gosto em comum pela cultura otaku. Segundo Ricardo Aleph, um desses amigos originais, o primeiro Henshin foi algo residencial, sem divulgação ampla, apenas a vontade de unir tribos de RPGistas (jogadores de Role Playing Game – o famigerado RPG) e otakus e trocar experiências, há cerca de 5 anos.

Os heróis japoneses que se transformam, geralmente, têm uma frase-chamado, o henshin call, que marca a transformação (traduzindo para “ocidentalês”: quem não se lembra do “é hora de morfar” dos Power Rangers?). Os garotos “reclusos”, como Erick Gomes definiu a si e seus colegas otakus, resolveram proclamar sua henshin call e expandir a ideia do encontro. O Henshin atual já tem 4 anos e a expectativa de Gomes, um dos organizadores, é crescer ainda mais.

A Vingança dos Nerds

Foto: Purki
No clássico da comédia, “Os Nerds Também Amam” de 1984, um grupo de amigos segregados e “bullyin-ados” resolvem assumir o controle e restaurarem sua paz e auto respeito.

O que parecia relegado ao esquecimento das Sessões da Tarde dos anos 1990, foi se indicando a partir da virada e é, hoje na segunda década do século XXI, uma realidade irônica e adorável: diversos artigos jornalísticos analisam a ascensão da cultura geek (termo atualizado para “nerds”) ao mainstream da cultura pop.

Na televisão, o The Big Bang Theory, de maneira divertida e leve, centraliza sua trama e personagens neste universo do cara tão estudioso, tão focado em seus gostos, mundo e, principalmente, em suas linguagens tão específicas (muitas vezes altamente sarcásticas) que - óbvio - eles são reclusos.

Foto: Purki
O interessante desta onda geek do novo milênio, é que – ao contrário das baboseiras dos anos 1980/90 em que o estereótipo nerd era do cara de óculos fundo-de-garrafa, eternamente apaixonado pela líder de torcida e babão melequento – os geeks sentem orgulho de serem o que são e, na verdade, olham com desdém para com os “normais” (no sentido literal de “sob a norma social”).

No cinema, os filmes baseados em histórias em quadrinhos são campeões certos de bilheteria, principalmente porque as produções pararam de tentar traduzir o universo geek para o público mainstream e, finalmente, resolveu tratar o verdadeiro leitor de quadrinhos como adulto e consumidor rentável. A última década trouxe clássicos como Batman, O Homem-Aranha e os X-Men repaginados para o cinema de maneira mais fiel possível ao material original. Tal público consumidor tem se mostrado tão forte que, se antes era descaradamente ignorado pelas grandes produtoras cinematográficas, hoje, em feiras como a Comic Com (a maior do mundo no gênero – em San Diego, Califórnia) o sucesso de um filme é essencial para a garantia de seu lançamento. É o suprassumo da vingança dos nerds.

Mentira! O auge foi quando certo CDF de Harvard levou o pé na bunda da namorada e criou uma rede social que passaria a ser a maior do mundo. Só que essa história é um tanto azeda e nem merece ser destrinchada.

Foto: Purki

A estudante de Engenharia Florestal e uma das organizadoras da Geek Party (festa que acontecerá no próximo mês, mas teve sua prévia no Henshin 2012) Gabriela Sande me dá uma dica sobre este atual sucesso da cultura geek: a explosão tecnológica. “Os geeks ou nerds são pessoas fanáticas por tecnologia, pelo o que é novo,” diz. A atenção que a temática geek recebe, se firmando, inclusive, como uma moda cultural, está organicamente interligada à atual lógica de consumo, na qual o lançamento de um novo modelo de iPhone causa alvoroço e excitação coletiva – algo como um fetiche pela novidade tecnológica.

Sande continua, “isso liga o Oriente ao Ocidente pelo fato de que o Oriente é um dos grandes pólos de tecnologia e é de lá que surgiram muitos dos principais jogos como Super Mario, Mortal Kombat, Street Fighter – então, essa tecnologia acaba ligando um mundo ao outro.”

Contudo, se há algo que não precisa ir muito além do senso comum para saber é que modas são passageiras. Então, estariam os geeks fadados ao mesmo destino descartável das tecnologias que mudam – com permissão da hipérbole – à velocidade da luz? Eu diria que não. Desde os anos 1980, quando esse fetiche tecnológico começou a se desenvolver com os primeiros computadores domésticos e videogames, a cultura geek/nerd sempre esteve presente na vivência da cultura pop: à medida que placas-mães, bites e bytes passaram a fazer parte de nosso dia a dia, cresceu a curiosidade e interesse pelas mentes produtoras dessas coisas que nos proporcionam novas ideias, sonhos, interfaces, realidades - antes era com escárnio e preconceito, agora com admiração e variadas pontadas de inveja.

Portanto, se hoje somos todos viciados, neuróticos e paranoicos pelas novidades tecnológicas – e a tendência é piorar – o nerd recluso e tímido tem um bom tempo à frente no topo da cadeia alimentar das regras, interesses e redes sociais (trocadilho intencional).

E, finalmente, a verdade é que essa galera está se esbaldando! Eles agora são o centro das atenções, mesmo com toda nossa discriminação. Isso era nítido nos olhos e comportamentos da população do Henshin 2012. Para Gabriela Sande, isso é ótimo por abrir espaços de troca e aumentar as possibilidades de acesso a materiais que, há alguns anos, eram difíceis, quiçá impossíveis, de adquirir.

Ao fazer o balanço do evento deste ano, Erick Gomes se demonstra feliz com a transformação dos geeks em direção à luz: “a gente tem que estar sempre aberto para atender e receber vários tipos de modificações que ocorrem no mundo”.

E a cultura otaku é uma delas: ela se expande, evolui  e atende ao seu henshin call.

Foto: Purki

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O Henshin 2012 aconteceu na Instituto Educacional Euclides Dantas, em Vitória da Conquista, nos dias 01 e 02 de setembro.