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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Relembrando gostosinho - #Retrospectiva2012 [Fevereiro]



Da Redação

Continuando com a nossa série de postagens da #Retrospectiva2012, vamos relembrar o mês de fevereiro n'O Rebucetê!

ALICE VAI AO TEATRO


Distante geográfica e historicamente do teatro francês marcado por Édith, o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima foi palco para Bagunçu, peça apresentada pela Companhia Operakata de Teatro. Noite fria para um Verão Cênico, mas que foi aquecida pela luz do candeeiro de Belinha, a personagem principal do enredo que tem sua vida transformada após encontrar alguns objetos da fazenda do Coronel Domingos de Oliveira, invadida e saqueada num caso de vingança entre famílias.


Como já dizia Torquato Neto em 1972, na sua coluna Geleia Geral, o carnaval foi na Bahia e quem não veio, perdeu. Agora, só no próximo ano… se o Calendário Maia nos deixar viver mais um. Carnaval em Salvador foi muito mais que ver Chiclete cantando "você é mega, você é dez" ou as coxas de Ivete Sangalo. Carnaval em Salvador foi e vai muito além da discrepância entre o luxo dos camarotes e a dificuldade dos cordeiros que trabalham para a gente se divertir. Confiram a deliciosa narrativa de Mariana Kaoos sobre o Carnaval de Salvador em 2012.


No mês de fevereiro esticamos o carnaval com mais uma edição do #GritoRock em Vitória da Conquista. A primeira noite foi marcada pela influência dos mais variados gêneros musicais, do punk-rock ao samba e carimbó, contando com  as bandas Cama de Jornal (VCA), Zefirina Bomba (João Pessoa) e Alaídenegão (Manaus). Thaís Pimenta contou como foi.


Murillo Nonato sobre a "esquizofrenia coletiva" instaurada em meio à greve da polícia militar ocorrida dias antes do carnaval.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Too Late! (antigone) contest #2

Por Ayume Oliveira


Talvez não tão tarde... a peça italiana encena as esferas do poder, tanto no âmbito da macropolítica quanto no familiar, e mescla elementos contemporâneos à tragédia grega Antígona, com citações de Bertold Brecht e exaltação de movimentos sociais como “Occupy Wall Street”.

A peça começa com o diálogo entre pai e filho (personagem encenado por uma mulher com características andrógenas que ao decorrer do espetáculo se desfaz do bigode falso e da peruca). O diálogo no primeiro Ato é bestializado e o adolescente se transforma em um cachorro voraz. Entre latidos a relação de poder entre pai e filho se destrincha. O cão grane e o pai assobia 'fiu-fiu-fiu... calminha... aqui tá o seu osso', que soa como 'você depende de mim, e sabe disso'.

A peça utiliza de recursos do teatro contemporâneo, como a metalinguagem, onde os atores muitas vezes paralizam a cena para discorrer sobre a encenação: “como ficaria melhor?”; “tenho dificuldade no latido, puxa aqui... no diafragma” ou “se Creonte morresse de bala perdida causaria mais impacto no nosso público ou seria melhor um ataque fulminante?”

A tragédia grega, escrita há 2500 anos por Sófoles, expõe a problemática da opressão de um Estado e a condição da jovem Antígona, sobrinha de Creonte, que o enfrenta. Os dois atores, Silvia Calderoni e Vladimir Aleksiv revezam os personagens de Antígona ou o filho adolescente e Creonte ou o pai opressor. Creonte (imagem do poder) utiliza uma máscara de látex, ou melhor duas. E é surpreendido por Antígona/atriz: “Vlad, por que duas?”, ao que ele responde: “Ah, improvisos do teatro”. 

Num outro diálogo travado entre a mesa de refeições da família e a estrutura de iluminação do palco, a adolescente se utiliza de hidrocor para escrever no corpo semi-nu dependurado: atriz, poder, anarquismo, opressão. Simultaneamente, a menina retira o Iphone de uma das meias e começa a ouvir o hit 'Mr. lonely' enquanto o pai dispara initerruptamente com cinismo: “Vai limpar esse corpo, corta esse cabelo, para de se pendurar você é uma moça, desliga essa música, aprenda a se portar à mesa, você está parecendo um menino.” VAI, FAÇA, PÁRA, SEJA. “Eu lhe dou as ordens,você escuta.”

Na tragédia grega Antígona é condenada à morte, como penalidade e castigo pela sua desobediência e se pergunta: “(…) cercada de infortúnios como vivo, a morte seria então uma vantagem?”. Ao contrário, no espetáculo da companhia Motus, o fim trágico é destinado a Creonte, que despenca das escadarias do teatro, enquanto 'lonely, i'm Mr lonely, I have nobody' ainda ressoa. Morre de bala perdida enquanto sapateia para a plateia, ressucita e morre novamente de taquicadia. Antígona/atriz assiste. Retira uma das máscaras do 'defunto', a preenche com papel de modo que não seja mais flácida até que se torne um rosto.

Ao fim da peça morre Creonte. O tirano na companhia de si mesmo, abandonado com suas duas cabeças.


Ficha Técnica: 
Concepção e direção: Enrico Casagrande e Daniela Nicolò
Elenco: Silvia Calderoni e Vladimir Aleksic
Trilha sonora: Enrico Casagrande
Produção: Motus
Língua: italiano (com legenda)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Poesia é Inútil

Por Lucas Oliveira Dantas

Foto: Divulgação
Desde a entrevista com Sonia Rangel, eu sentia que minha “crítica” sobre o “Protocolo Lunar” não poderia ser, senão, sobre a experiência do espetáculo e não sua técnica. No momento em que se iniciou o espetáculo, pensei em meu pai, Flavio Dantas.

“Quem diabos é seu pai e que cacetas eu tenho a ver com ele?”, talvez se pergunte. Explicarei.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

“Boa arte em qualquer lugar, ela pega você!” - O Rebucetê Entrevista: Sonia Rangel

Por Lucas Oliveira Dantas


Sonia Rangel/ Foto: Divulgação
O espetáculo Protocolo Lunar surge a partir da pesquisa científica e trabalho do Grupo Os Imaginários, sediado na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba), e orientado pela Prof. Doutora em Artes Cênicas pela Ufba Sonia Rangel.No auge de seus quase 40 anos em cena, Sonia – acompanhada de seus colegas de produção Enjolras Matos [pronuncia-se “Anjorrá”] (co-diretor) e Yarassarath Lyra (atriz) – nos concedeu uma entrevista que transbordava a tranquilidade de quem tem mais experiência de vida e, portanto, muito a ensinar.

Esta lógica, inclusive, é a coluna vertebral da trama do espetáculo que, depois de uma bem sucedida turnê por diversas cidades do Brasil, se encerra em Vitória da Conquista. Desenvolvida a partir do intercâmbio de experiências de todo encontro entre jovem e velho, “Protocolo Lunar” é fruto de um intenso trabalho de ensino, pesquisa e extensão, passando pelas maravilhas e instabilidades do trabalho acadêmico, mas culminando no contato com diversos públicos e reações – todas tendo a emoção pela curiosidade do mundo como ponto comum.

O Rebucetê: O espetáculo “Protocolo Lunar” é descrito como “poesia de imagens” e o trabalho do grupo “Os Imaginários” é fruto de uma pesquisa teórica que recai justamente no universo da poesia e da ciência; fale-nos um pouco sobre esse processo de criação, como tais pesquisas sobre sonho, imaginação e criação se traduzem na peça.

Sonia Rangel: Esse campo ligado a imaginário, sonho e poesia, é um campo estético – parte da filosofia da arte, a Estética – que está muito vinculado às minhas preocupações de professora, artista. Então, isso chega até a sala de aula e de lá esse processo criativo, [Protocolo Lunar] especificamente, ganhou uma qualidade e visibilidade dentro do contexto de Salvador, e fora, e estamos até hoje nisso. É uma costura de muitos olhares e muitas demandas.

Tem um vínculo também que é interessante porque um poema que está usado na dramaturgia, faz parte do último livro que publiquei, no final do ano de 2009, chamado “O Olho Desarmado – Objeto Poético e Trajeto Criativo”. Este espetáculo, os temas que a gente trata nele – essa relação poesia, ciência, olhar o céu e ter curiosidade sobre as coisas do mundo – deriva, um pouco, desse livro. Então, é um ciclo que, além de agregar muitos criadores, é essa conjugação de pessoas, lugares, desejos que faz com que o espetáculo [seja] uma arte que quando dá certo é uma beleza, mas não é fácil de dar certo.

OR: Você diz isso por conta dos meandros da pesquisa e os direcionamentos que podem se tomar?

SR: Nem é tanto pelos meandros da pesquisa, mas é por essa instabilidade de você não ter a certeza de que você vai ter o financiamento. [...] Você lida com essas circunstâncias contingenciais da vida das pessoas e da vida cultural, da cidade, do país. Então, às vezes uma série de fatores, magicamente – entre aspas porque tem muito trabalho por traz! –, se junta e dá certo alguma coisa. Então, esse “dar certo” é sempre um jogo no escuro, é sempre um passo sobre o abismo. Às vezes, você cai num lugar muito bonito como é esse momento que a gente tá atravessando agora: não é o primeiro espetáculo do grupo e, também, este [grupo] não é o mesmo, nesses anos de conjugação, estabilidade e instabilidade que estão conectadas nesse lugar que a gente atua.

Protocolo Luna/ Foto: Divulgação
OR: A história de “Protocolo Lunar” se desenvolve a partir do encontro entre uma menina – e sua sede de conhecimento – e uma velha – com sua bagagem de vida. Por que este encontro de gerações é o ponto inicial da trama?

SR: Talvez porque a senhora – mais jovem – que está aqui na sua frente [risos]… quando a gente vai chegando numa certa idade, vai ficando mais menino, vai se interessando por isso; talvez porque essa temática da criança é retomada, ela já fez parte dos meus escritos, da minha pintura e outros meios expressivos que trabalho, mas isso reapareceu forte no livro “O Olho Desarmado” […] e é um pouco também… a maior parte dos meninos que estão no grupo vem da licenciatura, então tem esse vínculo com a arte enquanto processo educativo. Quer dizer, o arquétipo mais comum de conhecimento é essa conversa entre quem está terminando a vida e começando a vida.

OR: Mesmo com uma linha de trama que abrange todos os públicos, a peça é destinada ao público infanto-juvenil? Por que ele, qual a importância de fomentar o teatro neste nicho específico?

SR: É engraçado porque a gente se viu trabalhando com esse público, porque a questão do teatro de animação e boneco tem esse vínculo muito próximo, mas o texto não faz concessão. Em nenhum momento a gente pensou “vamos fazer uma coisa dessa forma para que a criança perceba, entenda.” Tem coisas no texto, inclusive, que são adultas – que são palavras, sentimentos, relações para um adulto entender –, mas que para a criança, também, cria uma curiosidade, ela vai atrás disso. Quer dizer, o texto não subestima nem a inteligência, nem a sensibilidade da criança. Então, ele cai num lugar que é aberto. É o tema da infância e da velhice em qualquer idade e momento da vida.

OR: A senhora acha que é importante, as produções voltadas para o público infantil terem essa perspectiva de não fazer concessões?

SR: Não sei… essa é a opção da gente, a que a gente está afirmando. A gente não pensou “vamos pesquisar uma linguagem para tratar do universo da criança”. Eu acho que, às vezes, o adulto subestima muito a criança; o entendimento dela, a lógica, o que ela sente – criança não tem problema, não pensa, não sabe das coisas; participa pouco, às vezes, de um universo que ela já entende. Eu acho que há um lugar de subestimar.
Eu penso que a medida dessa relação com a criança deve ser também por temas da vida, do geral das coisas, o brincar com o conhecimento do mundo, o ter curiosidade pelo mundo… é algo que é a vida toda, não é só a criança. E ela, às vezes, é subestimada – no sentido da sua própria inteligência – em determinadas produções. Agora, existem formas e formas de se fazer – não estou dizendo que a minha é a melhor e nem é a única. De alguma forma, é o lugar que a gente acabou chegando como forma de trabalho.
Boa arte em qualquer lugar, ela pega você! Uma coisa boa de ouvir, de ver. Não precisa ser datado.

OR: A peça também é descrita como “uma aventura compartilhada entre palco e plateia” e a temporada passou por diversos lugares do Brasil. Como, ao longo da turnê, se desenvolve esta “aventura”; conte-nos histórias sobre esta relação.

Protocolo Lunar/ Foto: Divulgação
Yarassarath: É interessante que uma coisa comum é o encantamento que a plateia tem com a linguagem, com a atmosfera que o espetáculo promove. [...]  O interessante também é como chega, nas crianças, a curiosidade que a criança tem de saber como se move... a parte técnica. Teve uma pergunta fantástica de uma menina: “como foi que nasceu essa história?” Quer dizer, ela acompanhou [a trama]. E outro “que espécie de música é essa?”… quer dizer, é um espetáculo que provoca.

Enjolras: E teve um espetáculo que um menino, de uns 12 anos, chorou o espetáculo todo e, no final, ele pediu se podia abraçar, fazer foto com a atriz. Mas ele se emocionou com espetáculo; é um trabalho que encanta muito os adultos também.

OR: Qual o sentimentos de vocês, enquanto equipe, de estar em contato com essas reações do público?

Y: É maravilhoso! Você está terminando o espetáculo, fazendo os agradecimentos, e a pessoa ali na plateia louca pra falar com você, pulando de lá, querendo falar com você. É muito bom você ter essa recepção. Isso é muito interessante porque provoca!

SR: Muitas pessoas depois mandam mensagens, contando suas reações ao espetáculo, dizendo porque foi importante, ou se reconhecendo em circunstâncias, reativando a criança – dando vontade também de fazer poesia.

E: Também tem muito da nostalgia, quando o velho vê a história causa essa nostalgia.

OR: Por fim, na Bahia e no Brasil há uma evidente disparidade na circulação da produção artística; a música acaba sendo mais facilmente disseminada, não somente pela iniciativa privada, mas também pela participação do incentivo público nos eventos fomentados no estado. Como a senhora pensa, analisa, as políticas públicas para a cultura na Bahia, especialmente para a circulação teatral?

SR: Olha, eu não posso me queixar. Estou exatamente usufruindo de uma política pública. Esse grupo não teria a menor condição de fazer o que está fazendo se não fosse ao âmbito desse acordo. Todos no grupo temos a sobrevivência garantida por outras fontes; ninguém sobrevive do teatro, mas faz teatro – esse profissionalismo que é mais pela paixão do que ser remunerado por aquilo. E então, acho que há [necessidade] desse lugar de apoiar o artista que está em formação e egresso de escola, tentando se firmar.

Eu penso que na hora em que muitas coisas se multiplicam, como se ampliaram as extensões, atingindo lugares e regiões e grupos que antes não se atingia, quando você amplia, possivelmente, ocorre o percentual de que, em algum momento, aquilo falhe. Mas, no teatro – especialmente lá em Salvador – você vê um movimento dos grupos se organizando, se cooperativando, se firmando e multiplicando profissionalmente; como você vê também políticas públicas tentando atingir esses grupos. É impossível num país como o nosso, a cultura em qualquer ramo, sobreviver sem a presença do Estado.

***
Protocolo Lunar está em cartaz hoje [24] e amanhã [25] no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima – com duas sessões diárias: às 16h e depois às 20h. Ingressos podem ser comprados na Sede do Coletivo Suíça Bahiana, no Viela Sebo-Café. Hoje às 17h30 bate-papo com a autora, Sonia Rangel. Amanhã – das 9h às 13h – haverá oficina de teatro de animação. Ambos os eventos no Centro de Cultura.