sábado, 8 de setembro de 2012

Diário de Bordo: Um presente de Iansã a Iemanjá

Foto: Divulgação

Por Thaís Pimenta

Antes de colocar o pé na estrada, eu pedia a Iemanjá que lavasse a minha fé e a Ogum, o pai do sol, que iluminasse o meu caminho. Meu destino: Fortaleza-CE para participar do Congresso Nacional de Ciências da Comunicação, Intercom 2012. Primeiro itinerário, Vitória da Conquista-Salvador. Na terra do axé, parada para receber a magia e energia do sincretismo religioso que envolve a cidade antes de alçar vôo para a capital cearense, onde os orixás continuaram a me guiar.

Chegando ao aeroporto internacional de Fortaleza, na terça (4) à tardezinha, via-se um movimento incomum. Na cerca que fica logo após ao portão de desembarque, dezenas de pessoas aguardavam com um olhar apreensivo e ansioso. Cheguei a pensar que poderia ser uma recepção calorosa que preparam para a equipe d’O Rebucetê, mas não. O grupo de tietes esperava a dona de um corpo bem mais escultural do que o meu, Viviane Araújo, vencedora da última edição d'A Fazenda, reality show da TV Record. Superada minha desilusão, sigo para o hotel para descansar da viagem e procurar na programação cultural da cidade os possíveis lugares a visitar quando não estivesse no Congresso. Zapeada pelas rádios, internet, indicações de pessoas da cidade. Escolha feita: Quarta de Iansã, festa que aconteceu na noite seguinte. Minha missão até lá: Conservar-me para depois cair no samba a noite toda.

Durante o dia, entre as atividades do Congresso, me dediquei a me localizar no mapa da cidade e entender qual a logística do busão. Encontro no mapa o Studio Mocó, local onde acontecem as Quartas de Iansã, observo os lugares próximos e faço minha rota. Primeira parada: Dragão do Mar, centro cultural, onde turista e moradores da cidade se encontram à noite para curtir som ao vivo e uma cerveja. E assim o fiz. Entre um gole e outro e conversas com amigos, escutava músicas que passavam pelos mais variados ritmos e bandas, indo de “Come As You Are”, de Nirvana, a “Eu quero Tchu, eu quero Tchá”. Mas  naquela noite eu queria mesmo era um mergulho na cultura negra!

Já passava das 23h30 da noite, e Iansã veio me lembrar que eu já estava atrasada para sua festa e uma rajada de vento derrubou todos os copos da mesa. Do Dragão do Mar ao Studio Mocó, uma caminhada de cerca de 5 minutos e vento, muito vento, como ainda não havia presenciado na cidade. O local é frequentado por um público dito alternativo. Quando adentro o recinto, na força do rito, o grupo Tambor das Marias acabava sua apresentação. Mas logo em seguida dança, percussão e a capoeira do Grupo Afro Arte, veio fisgar minha atenção e arrancar-me um sorriso. O grupo é formado por jovens adolescentes moradores da comunidade de Iparana, no município cearense de Caucaia. Eu começo, a partir de então, a perceber o cunho social que a festa envolvia.

Foto: Divulgação
Abê, xequerê e alfaia,  para apresentação do grupo seguinte, o Movimento Arrastão, também formado por jovens adolescente, porém da comunidade da Praia do Futuro. A percusão do grupo mesclada a uma pegada de rock, sonorizava algo autêntico, diferente. O grave do vocalista somado às caixas de som que “zumbizaram”, não deixava nítida a pronúncia das palavras, mas o tambor... ah, esse sim conversa com o meu coração! Movimento Arrastão ainda se apresentava quando, saindo do estado de apenas expectadora, assumi o meu lado jornalistico e fui a procura dos organizadores do evento. 

Um presente de Iansã a Iemanjá. A festa foi organizada para arrecadar verba para o Vidas Mergulhadas, um projeto que une cinema e antropologia e tem como foco a produção de um documentário sobre a vida dos pescadores da prainha de Canto Verde. A idealizadora do projeto, a assistente social, Rose Costa, me contou um pouco mais do projeto: "Projeto pensado a sete anos atrás quando senti essa vontade de estudar mais a cultura dos pescadores. Isso veio me instigando, instigando e agora tô voltada para isso, para colocar esse projeto em prática. Além de fazer o documentário antropológico, vamos levar oficina de audiovisual, interagir com as mulheres, os idosos e o filme vai ser implantado na própria comunidade.”

Foto: Divulgação

A  vila dos pescadores de Canto Verde ainda desenvolve o turismo ecológico. Segundo Rose, permanece  entre eles uma valorização muito grande com a questão ambiental, a divisão de terra e apesar de a maioria não ter o nível de escolaridade alta, apresentam nível de organização comunitária bem expressivo. A equipe envoldia com o projeto tem cerca de 25 pessoas, entre eles pessoas que trabalham  audiovisual, sociologia, psicologia e ainda artistas plásticos. O intuito do projeto é que eles se apropiem do documentário que será produzido, a passem assim, a se conhecerem mais. “Além disso, ainda há o projeto de formar uma cooperativa de coleta seletiva de lixo, vamos dar uma oficina nesse sentindo, para que eles comecem a gerar renda com isso também”, afirma Rose.

Ibadã Brasil, o último grupo da noite se preparava pra tocar. E se é samba de roda, ah eu vou! Enquanto, no canto direito do palco preparavam os atabaques, os vocalistas do Ibadã Brasil convidavam o público a formar uma roda. Uma morena do gingado e sorriso bonito, girando a renda da saia, assumiu o centro da roda e começou a dançar. Um rapaz de chapéu, cheio de samba no pé logo passou a acompanha-la, e a partir de então não precisava-se mais de convite, as pessoas passavam a ocupar o centro da roda envolvidas pela mágica daquele momento.

Depois desse samba de uma noite inteira, na saída do evento, o vento forte voltou a rajar. Um sopro de Iansã que me acompanhava e mandava suas bençãos à prainha do Canto Verde, ao projeto Vidas Mergulhadas, a Iemanjá.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Putetê: Rebuceteiro Eu, Rebuceteira Ela!


Manifesto Nº2


Da Redação

No manifesto de lançamento d'O Putetê, nós ressaltamos a alegria e ironia de ser rebuceteiro: no nosso redemoinho de referências e gostos, nós enquanto grupo coletivo e - sempre que possível - igualitário, construímos um veículo de comunicação que procura falar e ser aberto a tudo relacionado a cultura. Não sei há quanto tempo vocês lêem O Rebucetê, mas já falamos da música clássica, ao brega, axé e, bem na outra ponta do processo, dubstep, por exemplo.

Isso não é porque queremos agradar a todo mundo (o que seria uma escolha natural a um veículo de comunicação que quer apenas comunicar), mas, simplesmente, porque, enquanto indivíduos diversos dentro de um grupo, nós somos assim mesmo. Em poucas palavras, ser O Rebucetê é sempre ser um Putetê.

E, como somos um veículo de jornalismo cultural, pista de dança, diversão…  loucura, babado e confusão… tudo isso é coisa muito séria para nós. Daí que nossa intenção na festa é exatamente ampliar essa ideia de agregar diversas vontades e gostos, pensando que uma pessoa que goste de K-Pop possa também gostar de dubstep e também do deboche do sassarico de Luís Caldas.

O Putetê, em nenhum momento, se dispõe a ser uma festa certinha, temática e encaixotada, na qual você deliciosamente vai para se acabar na pista de seu gênero favorito de música. O Putetê, assim como O Rebucetê, quer te incomodar sorrindo: quando você está linda e loira e diva sendo Beyoncé e de repente a trilha é:


É loucura, babado e confusão!

Lembre-se: nossa geração é PURO deboche!

Algumas pessoas têm estranhado o nome desta edição [Keep Calm and Dá Pá Nóis Que Nóis é Patrão] e os dizeres de nosso material gráfico de divulgação no Facebook:

  

Realizadas por nosso rebuceteiro-colaborador Dorgi Barros e pelo rebuceteiro-fixo Rafael Flores, os e-flyers são pura e simplesmente a materialização do deboche irônico que é a essência d’O Putetê. Com eles, não estamos apontando ou indicando gêneros, estilos e públicos específicos para o evento. Estamos apenas misturando tudo numa salada e dando risada da cara de todo mundo – e das nossas, principalmente!

Na página do evento no Facebook, rebuceteiros, colaboradores e leitores têm a liberdade de postarem suas sugestões de som e referências. Nosso line-up tem soltado dicas do que constarão em seus sets e playlists. São convites à diversão. A sermos sarcásticos e debochados, a não nos levar a sério, a abraçar novidades e a gargalhar e se divertir: um convite a ser rebuceteiro e cair n’O Putetê!

P.S.: Inclusive, quem tiver vontade de postar o que quiser na página do evento: FAÇAM!

Serviço

O quê: O Putetê 
Quando: 15 de Setembro
Local: Viela Sebo-Café
Horário: 20h
Entrada: R$5 (antecipado)

Pátria amada, o que oferece a teus filhos?


Por Mariana Kaoos

Dom Pedro, moço que viveu pra mais de séculos; bonito, de estirpe, carregava em si os nomes Alcântara de Bragança, tinha linhagem real, sabia uns fados portugueses e encantava as moçoilas por onde passava. Conviveu muito tempo com sua avó paterna, Dona Maria I (ou dona Maria, a Louca, como é comumente conhecida), teve pouca atenção da sua mãe, Carlota Joaquina e, aos nove anos de idade, foi enviado ao Brasil. Dizem que na juventude era namorador que só e que também se disfarçava para poder ir às tavernas do Rio de Janeiro. Aos 19 anos casou-se com dona Leopoldina. Pode-se dizer que esse português galanteador teve uma vida relativamente boa, alcançando êxitos, entrando para a história.

Para quem não lembra, foi esse mesmo Dom Pedro que, em 1822, mais precisamente no dia sete de setembro, resolveu dar um passeio pelas margens do rio Ipiranga, levantar sua então espada e soltar um fino e delicado, mas ainda assim, grito. Da sua boca portuguesa, que a essa época já se tornara muito mais abrasileirada, saíram um substantivo feminino, uma conjunção e outro substantivo feminino. Tudo formava a então frase: “Independência ou morte!”.  Tais palavras, simples e objetivas ecoam até os dias de hoje, não só pelos seus significados, mas, principalmente, pelas suas consequências.  

Como o grito inicial parece ter saído fino, sem muita convicção do que estava sendo dito, a história também se pôs dessa maneira. Ao longo dos anos, a meu ver, parece que a palavra “morte” resplandeceu muito mais que a “independência”. Diversos “Dom Pedros” surgiram por aí, a fim de libertar esse lugar em inúmeros aspectos. Seja de maneira econômica, cultural, política, ideológica, identitária. Alguns deram certo, outros falharam feio, mas acredito que a maioria tenha deixado um legado importante para as gerações que hoje, finalmente, se caracterizam como juventude: o legado da reflexão.

Povo heróico, brado retumbante...

O dia nasceu cedo nas Terras do Sem Fim*. Uma chuva rápida veio junto com o sol, molhando a areia, aumentando aquele cheiro de maresia em toda a Avenida Soares Lopes.  Às seis horas o pelotão do exercito já se encontrava concentrado, marchando em frente ao Cine Santa Clara**, esperando a hora para que finalmente pudesse desfilar. O coronel Aureliano Buendía apareceu montado num cavalo preto, sorrindo, como quem faz a premissa de uma forte manhã que se anuncia.

Aos poucos, o público também veio chegando. Por conta do calor, todos com roupas coloridas, chinelo de dedo e bermuda. Era possível observar vários vendedores de cerveja, água, refrigerante (na mega promoção de dois por cinco, bem geladinho, e ai, vai querer?) cantando e sorrindo “se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com braço forte” de uma maneira tão intensa que transparecia a crença, a fé de mudança.

Assim como no Festival Amar Amado, as ruas ilheenses ainda não estão preparadas para receber o povo. Com as calçadas esburacadas fica difícil acompanhar o desfile. Sem arquibancadas para o descanso das pessoas, chega um momento em que elas também cansam. Pela mentalidade da região, Ilhéus parece ainda se prender à cultura coronelista e cacaueira, mas a vassoura de bruxa avassalou a região desde o início da década de 1990. Hoje em dia a “província” sobrevive de outras fontes economicas que não só o cacau e respondem pelo aparente movimento da cidade. Se o tempo é outro, o povo é outro e a economia também, fica a reflexão do por quê dessa dependência de histórias passadas? Será que por mais um ano, nesse sete de setembro, a vontade de emancipação não irá fincar na cabeça das pessoas, ou ela passará rapidamente pela avenida junto com o Grito Dos Excluídos e, quando chegar ao fim do percurso será esquecida?

Ilhéus reconhece, respeita e admira, mas há muito já não é mais a terra de Gabriela, cravo e canela e muito menos dos magnatas do cacau. Existe uma nova roupagem nos diversos setores da cidade como a maravilhosa escola educativa Villa Verde e grupos de teatro de altíssima qualidade como o “Teatro Popular de Ilhéus”. Por que não nomear a região com esses novos rostos, com esses novos nomes? Muito provavelmente foi por isso que Dom Pedro, há 190 anos, também num dia de calor e exaltação, deu aquele grito.

Pindorama, país do futuro...

Apesar das inúmeras especificidades de cada região, a frase da independência ainda se faz viva em muita gente e em todo o país. O setor agrário, o setor oprimido como grupos LGBTTT, negros, pobres e vários outros, o setor educacional, o setor artístico, a juventude; todos já refletem acerca dessa atual conjuntura de mais “morte” do que “independência” e encontram de uma forma ou outra, a melhor maneira de sobreviver, de lutar, de pensar no outro e, finalmente, de se libertar de todas essas amarras sociais que nos prendem.

O povo junto é bonito e colorido. O povo emancipado pode ser ainda mais. Por hoje, a ode não vai a Dom Pedro e nem às lindas normalistas que desfilaram na avenida, mas ao povo, espremido em pé, que é a força motora da beleza do Brasil. Saudação aos que lutam.

Salve a rapaziada!

*Nome de um romance de Jorge Amado. “Terras do sem fim” se refere a Ilhéus
**Cinema que fica  na Avenida Soares Lopes. Faz parte do percurso da marcha.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O som não pode parar: Noites Fora do Eixo de setembro


Foto: Divulgação

Por Thaís Pimenta

O cenário musical alternativo de Vitória da Conquista conta com alguns festivais e shows esporádicos como Festival da Juventude, Avoador, o Conexão Vivo, entre outros. Mas são as noites Fora do Eixo, promovidas pelo coletivo Suiça Bahiana, que mantém essa cena acessa durante todo o ano. Um trabalho sem descanso. Toda quinta-feira, a cidade recebe, no Viela Sebo-Café, no mínimo duas bandas vindas das mais diversas regiões do país. Assim como afirma Gilmar Dantas, um dos membros do Coletivo: “Apesar de não poder abarcar um público de milhares de pessoas nos shows, nosso limite aqui é a entrada de apenas 300, as Noites Fora do Eixo são constantes, não deixa esfriar a cena nunca. Assim, durante o ano todo, com essa carga de informação, preparamos o público da cidade para os grandes Festivais.”

Se junho e julho foram mais voltados para o rock, setembro configura-se como um mês bastante eclético, e sua grade tem representantes do brega, carimbo ao soul music e funk. Além de passar por diversos ritmos, as Noites Fora do Eixo de setembro receberão artistas de renome nacional como Felipe Cordeiro e artistas internacionais como Color Noise, banda da Costa Rica. Mas também não deixará de valorizar a cultura do nosso estado, a grade conta também com bandas de Feira de Santana ( Tangerina Jones) Salvador  (A Folha) e Ilhéus (O Quadro).

Os burburinhos apontam que Felipe Cordeiro é uma das atrações mais esperadas. E assim como apresentação da Banda UÓ em Vitória da Conquista, ocorrida no mês de março, foi bastante procurada, esgotando-se os ingressos, a expectativa para o show de Felipe é de casa lotada. O cantor ganhou destaque no cenário musical nessa levada de ascensão do tecnobrega. Após o show em Vitória da Conquista, no dia 13, Felipe se apresenta em Salvador (15), em participação especial no show de Gaby Amarantos.


As Noites Fora do Eixo do mês de setembro começa hoje (6), e conta com o show de  Tom Lemos, de Vitória da Conquista e Luiz Natureza, de Salvador. O show de Tom Lemos promete ser repleto de talentosas composições próprias e interpretações únicas de músicas consagradas. Já Luiz Natureza, que lança seu primeiro CD em outubro desse ano, trafegará entre uma mistura de ska/ reggae, brega, tango, rock e seresta, trazendo influências de grandes artistas brasileiros, como Roberto Carlos, Nelson Gonçalves, Reginaldo Rossi e Raul Seixas.

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*As Noites Fora do Eixo acontecem todas às quinta-feiras, a partir das 21:00 horas, Viela Sebo-Café.

Políticas Públicas para Cultura - Vitória da Conquista está pronta pra discutir?

Foto: Rafael Flores
Por Rafael Flores

A cultura é um dos campos de atuação mais complexos e plurais, com suas diversas linguagens, especificidades, públicos e segmentos. Porém, ela possui um histórico marcado pela perca da tradição no desenvolvimento e implementação de políticas públicas voltadas para a mesma. É indiscutível a importância desse processo, principalmente no âmbito municipal, que é a base local de uma grande ação. O fortalecimento desse setor, vem sendo construído ao longo dos ultimos anos em território nacional, através de ações do Ministério da Cultura, principalmente de financiamento e fomento.

Em Vitória da Conquista, a existência de uma secretaria voltada para a Cultura, Turismo e Esportes, é recente. Porém, o município já possuía uma prática de eventos e ações insipientes há mais tempo, a exemplo da Miconquista (carnaval fora de época que existiu entre os anos de 1989 e 2008 na cidade). Na atual gestão, algumas ações podem ser facilmente pontuadas como fixas no calendário anual da cidade, a exemplo de eventos como o Natal da Cidade e o Forró Pé de Serra do Peri Peri. Segundo o atual secretário municipal de cultura, Gildelson Felício, “o fato da comunidade e dos artistas sempre criarem uma expectativa sobre esses eventos, acabam por transformá-los numa ação de governo, a qual independente do futuro prefeito, a cidade vai cobrar por sua execução”. Além dos eventos, a cidade possui alguns projetos governamentais mais antigos, oriundos de outras gestões, como a Filarmônica e o Conservatório Municipal, um dos poucos gratuitos no interior da Bahia.

Mesa sobre políticas culturais no Festival da Juventude/ Foto: Rafael Flores
Um dos principais objetivos das ações de políticas públicas para a cultura, além de facilitar o acesso da população, é provocar o debate e a formação cultural da sociedade, através dessas iniciativas. Tornar acessível o conhecimento cultural contribui imensamente na preservação da memória e identidade de uma nação. Por isso, é de extrema importância que as gestões públicas e privadas que promovem iniciativas com financiamento público, abram esse tipo de espaço para os debates. Em Vitória da Conquista, podemos destacar alguns projetos como a Mostra Cinema Conquista, realizada em parceria com a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, o próprio São João - Forró Pé de Serra do Peri Peri, através dos espaços lúdicos e o recente Festival da Juventude, que contou com oficinas, mesas redondas e intevenções em sua primeira edição, nesse ano.

Ainda segundo o secretário Gildelson Felício, o Festival é a mais nova aposta da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista por conta do seu bom resultado: “Consideramos altamente positiva essa primeira experiência com o Festival da Juventude pela quantidade de jovens que participaram e pela qualidade das palestras, oficinas e debates, além da parte musical que trouxe pra cidade grupos alternativos que não são pautados pelas mídias tradicionais”. Portanto, este tende a ser o terceiro grande evento da prefeitura e o objetivo é que o Festival cresça e  dialogue com os movimentos de juventude, assim como foi feito nesta primeira construção. Pretende-se torná-lo mais amplo e  democrático e abranger além da juventude universitária, as juventudes de campo e de periferia”. Pedro Massinha, produtor cultural e dono da empresa Massicas Produções, reforça a necessidade de programas culturais vindos da prefeitura que atinjam o público jovem e para necessidade deste público além de se interessar pelo consumo, se interesse também pela produção, prestando atenção em novos nomes da música e em eventos que agreguem a comunidade.

As discussões sobre cultura no âmbito governamental são recentes no Brasil. Mesmo assim, o país já conta com um Plano Nacional de Cultura, sancionado pelo presidente Lula, em 2010, e é signatário da Convenção da Diversidade Cultural da UNESCO, desde 2005. Esses dois documentos são fruto de um amplo debate que envolveu governo e sociedade. Para Vitória da Conquista, que pretende instituir um sistema de cultura, o caminho deve ser o mesmo – discutir exaustivamente e continuadamente com a sociedade os caminhos possíveis para a cultura conquistense. Em 2011, a cidade além de promover sua terceira Conferência Municipal de Cultura, sediou as conferências territorial e estadual. A necessidade de se estabelecer um sistema municipal de cultura foi os eixos principais da primeira, que aconteceu no dia 10 de setembro.

O pouco orçamento público voltado para o setor e as equipes reduzidas nas secretarias, foi uma das questões levantadas na época. O que, para GildelsonFelício, seria resolvido e melhor debatido com um Conselho de Cultura ativo na cidade. No entanto, a sua atual composição é do governo anterior e cerca de 50% dos membros, segundo o secretário, desligou-se, ou seja, a entidade não tem funcionado. O secretário nos informou que houve a tentativa de se reativar tal entidade durante a conferência, o que foi rebatido por ele e por outros, alegando a possibilidade de meios mais democráticos para tal.

Agora em 2012, serão nomeados alguns nomes, através de decreto do prefeito Guilherme Menezes, dentre eles, representantes de entidades culturais, como o programa ProLer e a Casa da Cultura. Estes nomes farão parte do conselho por um ano, tempo no qual serão responsáveis por destrinchar e tornar executáveis as propostas de Sistema de Cultura obtidas na Conferência, além de desenvolver uma melhor maneira de se eleger o próximo mandato. “Uma cidade do porte de Conquista não pode ficar com o conselho de cultura desativado, pois quando tiver uma demanda que precise ser decidida pela instância, fica inviável e enquanto não se elege um novo, o antigo, nomeado pelo prefeito Zé Raimundo, continua ativo”, diz o secretario.

O historiador e produtor cultural Marcelo Lopes, afirma que não existem políticas públicas para cultura e o diálogo com o poder público e com as empresas privadas são quase nulos neste sentido. Para ele, a iniciativa pública tem muitas vezes a necessidade de parcerias na realização de atividades culturais, mas não se articula de modo eficiente. “Já a iniciativa privada, mal enxerga a possibilidade real de uma relação, limitando-se na maioria das vezes, apenas como uma forma de reduzir custos”.

Orlando Senna/ Foto: Rafael Flores
Algumas outras ações de grande porte ainda estão por vir na cidade, é o exemplo do pólo de cinema que será implantado em parceria com a UESB. O audiovisual representa no mundo cultural um dos maiores circuladores de investimentos e consequente movimenta-se a economia do espaço onde se insere. Contando há dois anos com um curso de cinema e sendo o berço de um dos maiores pensadores do cinema nacional, Glauber Rocha, Vitória da Conquista aparece na linha de frente para se tornar a cidade do audiovisual baiano. A curadoria está sendo feita por Orlando Senna, ex-diretor da Escola de Cinema de Cuba e que ocupa lugar de destaque  na história cultural do Brasil. “Se começarmos a refletir sobre o que é a indústria audiovisual hoje em dia podemos chegar a respostas grandiosas e muito boas. Algo que pode aumentar a qualidade de vida da população de Vitória da Conquista, bem como da população de qualquer outro lugar que veja no audiovisual essa possibilidade”, diz Senna.

Sendo pensado para a implantação há alguns anos o Centro Cultural do Banco do Nordeste, rende especulações e discursos políticos. No entanto, Vitória da Conquista é uma das principais cidades visadas para ações do Banco, que realizou em parceria com o Coletivo Suíça Bahiana (vinculado ao circuito cultural Fora do Eixo) o Festival Rock Cordel, única edição que aconteceu no interior. André Marinho, curador cultural do Banco do Nordeste em Fortaleza afirma que a cidade deve receber mais ações como o festival, ainda que o processo de implantação do Centro Cultural esteja suspenso em razão das mudanças administrativas.

É importante que se entenda que o fomento à Cultura não é futilidade, que através de políticas públicas bem planejadas a cena cultural de uma região pode impulsionar fortemente sua economia. O próximo gestor deve estar atento ao que a sociedade civil e a classe artística mobilizada tem pensado, respeitar o as decisões do Conselho de Cultura e observar o gosto popular pelas ações pontuais já estabelecidas localmente. Lembrando que, Vitória da Conquista ainda não tem políticas públicas culturais estruturadas, temos apenas eventos pontuais, e estamos dependendo da reativação do conselho para o início da construção de um Sistema. Se nos ligarmos ao fato de que há décadas Conquista inspira e respira Cultura, estamos muito atrasados nesse sentido, nossa Secretaria de Cultura só tem oito anos de existência e ainda divide a verba com o Esporte e Turismo. No entanto, festivais como o da Juventude, pode funcionar com instrumento de excitação para que os jovens discutirem política e sociedade, podem borbulhar um pouco mais esta cena e ajudar a por no papel tudo que se quer e que se pode fazer em relação a essas políticas. Retomando a pergunta do título, Vitória da Conquista está sim preparada para discutir e pensar tais planos, o que preocupa é o engajamento, da gestão municipal e da sociedade civil, para pode transformá-los em ações.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

“Eu construo o meu mundo e todo mundo constrói os seus respectivos mundos”


Por Vinicius Carvalho

Foto: Larissa Cunha
Os gaúchos do grupo de teatro “De Pernas Pro Ar” vieram à Bahia, pela primeira vez, a convite do FILTE. Trouxeram dois espetáculos de rua, “Mira” com seus bonecos gigantes, inspirados nas obras do espanhol Miró e “Automákina - Universo Deslizante”. A trupe familiar se instalou na Praça Municipal de Salvador na segunda (04) e na terça-feira (05) em Lauro de Freitas, surpreendendo todos os transeuntes com uma engenhoca gigantesca. 

O mundo portátil, solitário e impenetrável do soturno Duque de Hosain’g não tinha como não ser notado. A “Automákina”, assim intitulada por seu criador, Luciano Wieser, encantou trabalhadores que rotineiramente utilizam o Elevador Lacerda e passavam pelo local, além dos idosos, universitários, os típicos turistas do centro histórico e principalmente crianças.

Foto: Larissa Cunha
Apesar de não ser um espetáculo infantil, não especificamente, as crianças piram no ‘tiozinho’ de cabelo estranho. Um garoto chegou a indagar a mãe que a peça se dividia em vários episódios, alguns fizeram questão de apertar a mão e tirar foto com o ator após o espetáculo. Sentado em meio ao público não foi difícil perceber o estranhamento inicial de boa parte das pessoas presentes. Houve estranhamento de muitos diante do espetáculos, alguns chegaram a dizer, “depois, o maluco sou eu”, ou inusitadas frases como, “esse cara é pirado na goiaba” e ainda uma ousada exclamação, “é o avô de Neymar?!”. Mas Wieser, ator em cena compreende tudo isso: “As pessoas são livres, livremente podem vim, parar, assistir e ir embora. Se gostar fica e quando termina fica essa sensação de ampla doação, de que a gente recebe e que a gente deixa algo em cada um”, afirma o artista acostumado com espetáculos de rua.

A nave, que exigiu dedicação integral durante três anos, foi construída simultaneamente com a construção da personagem. Wieser bebe um pouco de tudo, da magia do teatro de rua e suas técnicas circenses ao simbolismo do teatro de bonecos e instrumentos musicais inusitados. Sua formação de rua e autodidata o fez passar um mês em uma fábrica de pranchas de surf para aprender a trabalhar com fibras além de perder cabelos e se ferir ao produzir os moldes faciais dos bonecos que integram o espetáculo.

O cordão que isola o artista/obra do público não demora ser rompido. A personagem entra em conflito consigo mesma e dessa vez decide sair do seu mundo particular e impenetrável e interagir com a plateia: “É nesse momento que as pessoas se sentem em meu trabalho. Eu construo o meu mundo e todo mundo constrói os seus respectivos mundos. E a ideia é fazer com que cada coisa que tu faz, tu deixa um lasca tua, deixa o teu DNA”.
Ao fim da apresentação o artista não passou chapéu. Continuou a interação com o público recebendo todos que vieram parabeniza-lo pelo trabalho, o que não foram poucos. “A gente não passa chapéu, por entender que nosso trabalho é muito grande, é preciso ter outras formas de recursos”. 

Foto: Vinicius Carvalho
O apoio financeiro para a execução do projeto da peça “Automákina - Universo deslizante” vem de um edital da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre (RS). Entendi o porquê de não passar o chapéu, mas Luciano Wieser confessou ao me perguntar após a apresentação “dá pra viver de arte assim?” – Acho muito difícil, infelizmente.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Purpurina e Boás:“Gayboa” apresenta "Entre Nós, uma comédia sobre a diversidade"

Por Jéssica Lemos

Foto: Vinicius Carvalho
No mês de setembro, o Teatro Gamboa Nova apresenta uma programação especial com várias peças temáticas, exposições e uma recauchutada no visual. Por isso, o teatro foi batizado de “Gayboa” e propositalmente inserido na programação do FILTE  com o espetáculo “Entre Nós”, uma comédia sobre a diversidade, apresentado no local de 1 a 3 setembro.  E o Rebucetê não ficaria fora dessa, fomos até lá conferir essa comédia.

Nos primeiros momentos, o que chama de fato a atenção é a estética do teatro, que na sua fachada tem um arco-íris, símbolo do orgulho LGBT. Além disso, a exposição fotográfica Boneca Sai da Caixa, produzida durante a parada gay em Salvador, decorava as paredes do foyer. Porém, o mais interessante foram os banquinhos roxos, com florezinhas e borboletas pintadas de maneira bem artesanal. “O teatro tem uma particularidade especial e um pé na diversidade” afirmou o ator Igor Epifânio. Seu parceiro de palco, Anderson Dy Souza, contou que o Teatro Gamboa Nova adotou essa estética pela história, pois no local já aconteceram vários shows de Drag Queens, além de desfiles e performances de transformistas. Tudo isso reafirma a intimidade que o espaço tem com o público LGBT.

Agora tudo faz sentido! Vamos ao espetáculo e Bon Appétit, assistir “Entre Nós” é se deliciar com uma das melhores comédias. Confesso que a princípio esperava ver um espetáculo muito ruim ou talvez uma verdadeira chanchada. Mas Anderson Dy Souza e Igor Epifânio surpreenderam a todos se desdobrando em onze personagens. A trama gira em  torno de dois atores em processo de criação de uma história de amor entre dois jovens homossexuais, batizados por eles de Rodrigo e Fabinho.

E como toda história de amor, tinha que haver sofrimento. Foi assim com Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, com casais novelísticos e por aí vai. Cumprindo o clichê, na história dos dois jovens, um vilão tenta acabar com o amor dos mocinhos. Mas dessa vez, a dificuldade do casal foi vencer os preconceitos, recalques e visões de mundo diferentes a cerca do tema diversidade sexual.

Numa pegada pop, o espetáculo tem como público-alvo os adolescentes, mas não deixa de agradar as demais faixas etárias. Uma senhora, que se sentou ao meu lado estava em prantos ao fim do espetáculo. Quem pensou que as comédias só arrancavam risos, se enganou, pois no teatro você esta diante de si mesmo.
Jessica Lemos

Formados pela Escola de teatro da UFBA, os artistas independentes, Anderson Dy Souza, soteropolitano, e Igor Epifânio, cearense, resolveram unir suas experiências na criação do espetáculo “ENTRE NÓS”, com a direção do dramaturgo João Sanches. A peça foi montada com o apoio de um edital de cultura identitária que o grupo ganhou, os atores mergulharam por um ano em pesquisas para a construção dos personagens.

*Em paralelo ao FILTE, a primeira semana da diversidade LGBT também movimenta Salvador. O evento, que teve início no último sábado (01), apresenta em sua programação seminários, palestras, cursos, voltadas para o combate a homofobia. O encerramento do evento (09) fica por conta da XI parada do orgulho gay.