domingo, 21 de outubro de 2012

Então me ajuda a segurar essa barra que é gostar de você


Por Mariana Kaoos


Desde pequena, um dos pilares da minha criação enquanto ser humano foi a música. Quando criança, meu pai me ninava com as histórias de pescador que Dorival Caymmi contava nas suas canções, bem como o “Chululu” de Gal Costa e “Lígia” de Tom Jobim. Lembro como se fosse hoje o dia em que ele viajou e trouxe de presente para mim o disco Eu, Tu, Eles, de Gilberto Gil e isso me marcou profundamente. Depois foi uma coletânea de Cazuza, “Livros” de Caetano Veloso e aí vieram tantos outros que posso classificar a minha educação auditiva como algo um pouco diferenciado do que meus amigos na época ouviam.

Sim, por muito tempo dancei É O Tchan, pulei atrás do trio nos carnavais de Ilhéus ao som de Netinho, ia nas barracas de praia e me submetia a ouvir coisas como Só Pra Contrariar. No almoço, por conta da moça que trabalhava em minha casa, Tina, acabava aprendendo a letra de uma ou outra música de Leandro e Leonardo. Mas de fato, todos esses eventos eram esporádicos.  Nunca tive um forte apreço por esse segmento musical considerado pela minha mente pseudo cult (que de cult não tem nada) como “brega”. Quando “adolesci” a intolerância só aumentou. Era rock clássico, reggae, eternamente bossa nova, nunca arrocha. Pagode romântico então, nem pensar.

Pra ser bem sincera, sempre foi muito confortável me colocar numa posição superior por ouvir sons mais refinados e discriminar os outros tantos mortais que se submetiam a ouvir essas músicas e adoravam. Essas pessoas geralmente colocavam faixinhas no cabelo com o nome da banda ou ídolo, no quarto tinham pôsteres colados na parede e constantemente participavam de fã clubes. Decididamente jamais passaria por minha mente, um dia, delirar ouvindo essas mesmas coisas que eu tanto reneguei.

Mas meu coração está preso a você...

Há pouco mais de dois anos, meu pai foi fazer mestrado em Santa Catarina. Como sempre fomos apegados, foi uma época difícil tanto para mim, quanto para minha mãe, que possui um grau de sensibilidade emocional muito mais elevado que o meu. Triste, chorona, cada vez mais calada, ela se trancava no quarto e dormia o fim de semana inteiro. Meu pai se preocupava, sentia saudades e constantemente vinha nos visitar. Em um desses encontros, não lembro qual especificamente, ele olhou para mim e com olhinhos brilhantes afirmou: “eu gosto tanto de sua mãe e fico preocupado com ela. Ela é minha namorada”. Em seguida começou a cantar Vida Cigana, de Raça Negra, e admitiu considera-la uma das mais bonitas músicas que já ouviu.

Naquele mesmo dia li a letra com atenção, ouvi a melodia de olhos fechados e sorri. Da mesma forma que Raça Negra era poesia para meu pai, também virou pra mim. Vida Cigana entrou para o setlist do meu mp4 e até hoje está lá.

Não deixe a chama se apagar...


Raça Negra é um grupo paulista formado em 1983. Seu primeiro álbum, porém, só foi lançado em 1991. A partir de então, eles se tornaram um ícone do pagode romântico. Suas inúmeras músicas fizeram sucesso por décadas e perduram até hoje. “Cheia de Manias”, “Doce Paixão”, “Quando te Encontrei”, “Quero ver você chorar”, “Jeito felino”, são algumas, dos inúmeros sucessos da banda. Recentemente, foi lançado um disco tributo aos ícones da música romântica, o disco Jeito Felindie. Artistas como Letuce, Nevilton, Lulina e Amplexos são alguns dos nomes que compõem o tributo. Cada qual trouxe uma versão muito particular, utilizando das composições originais, mas transformando-as em novas músicas, bonitas e subjetivas.

Todas as composições de Raça Negra tem como foco o amor. Relacionamentos que não deram certo, saudades de algo ou alguém, dificuldades de se envolver com outra pessoa. Transformar em rock esses sentimentos pode ate ter dado um novo ar para a maneira como se fala, mas no fim das contas, a mensagem continua sendo a mesma.

De maneira impressionante, 2012 foi o ano dos tributos. Até agora já rolou homenagem a  Los Hermanos na coletânea Re-Trato; The Strokes com Is This Indie; Caetano Veloso e seus 70 anos de carreira em homenagem internacional A Tribute to Caetano Veloso, isso sem falar nos vários artistas nacionais contemplados na coletânea Brasileiros. O de Raça Negra veio para aumentar esse número. Mas diferente dos outros, Jeito Felindie logo se tornou pop e atingiu distintos segmentos de públicos.

Quero te deixar você não quer...

Atualmente Raça Negra é uma das minhas bandas favoritas. A simplicidade de como as coisas são ditas, os sentimentos que as melodias me causam. Tomando uma cerveja numa tarde ensolarada ou com fones de ouvido no trabalho, venho aprendendo nos últimos tempos a beleza de ser “brega”, de poder cantar bem alto e me assumir romântica. As versões do Tributo, bem como as originais, vem embalando meus maiores momentos de sorriso e sim, hoje quando me percebo como as pessoas que tinha preconceito, me divirto com isso. Estou até pensando em colar um pôster no meu quarto. Quem sabe, quem sabe...

Ouça no blog Viver de Chamego o streamming na íntegra da coletânea. 

1 comentários:

  1. Acho que somos gêmeos. hahaha Me identifiquei, amei sua postagem.

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