sexta-feira, 2 de março de 2012

Holofotes sobre Romeu e Julieta: Após o fim, a nova chance de começo


Por Thaís Pimenta

“Frei Lourenço emprestara a morte a Julieta. Romeu juntar-se-ia com sua amada se fosse ao encontro da tenebrosa morte, a tem fria em seus braços, beija-a pela última vez e entorna o veneno. Julieta sai do ninho de morte, morte que tomaste como empréstimo por algumas horas. Encontra seu amor morto, decide dali jamais sair, dá as boas-vidas ao punhal que próximo ao corpo sem vida do seu amor, e faz-se morrer.  As famílias Capuletos e Montecchios reconciliam-se após a morte de Romeu e Julieta e The End.” FIM ?

A Peça intitula-se “Romeu e Julieta, um amor além da vida”, oportunidade perfeita para ver encenado o que meu imaginário forçava-se a tentar vislumbrar: o pós-morte de Romeu e Julieta. Parti então, na noite de quinta-feira(29), para a última noite da temporada Verão Cênico 2011/2012 em Vitória da Conquista, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. 

Foto: Lucas Dantas
Quando as portas cenográficas se abriram, Romeu e Julieta – interpretados por Givaldo Júnior e Mariana Vilas Boas – já estavam estirados ao chão, a fumaça que cobria os corpos levava o público a pensar “já foram tomados pela morte”. O público adentrava o local, e aos poucos, ajeitavam-se e desligavam os celulares, a peça estava começando. Julieta passa a respirar ofegantemente e desperta aos poucos, seus olhos flamejantes contemplam o acordar, olhos estes que esmorecem ao ver o frasco vermelho ao lado do seu amado; segura o vidro em suas mãos e com um forte movimento de deglutição, ingere o restante do liquido que matara Romeu. Começa a busca de um pelo outro no vale dos suicidas.

A Cia de Teatro Espirita Artessênicia, de Feira de Santana, traz em suas peças um plano de fundo, essencialmente, espírita. Através do teatro levam sua doutrina, falam sobre a imortalidade da alma e, mais especificadamente em “Romeu e Julieta, um amor além da vida”, abordam a questão do suicídio, assim como afirma o roteirista e diretor da peça Toinho Campos: “tentamos com o nosso trabalho trazer uma realidade maior sobre o suicídio, seus desdobramentos, falando da imortalidade da alma, mostrando que a vida não se encerra com a morte, pois superamos o corpo físico”.

Foto: Centro de Cultura
Durante a peça procurei algo que remetesse aos Capuleto e Montecchio, ao invés disso, encontrei personagens como irmã Maria e irmão Gabriel – interpretados por Véritas Damasceno e Elder Miranda. Aos poucos, percebo que a peça é um homônimo da grande obra de Shakespeare, e não sua continuação. No processo de criação da peça houve essa preocupação, “Tivemos esse cuidado de não dar prosseguimento à história de Shakespeare, até pra preservar e respeitar seu estilo, e eu não me sinto a altura para dar continuidade ao trabalho dele (risos). É claro, o espetáculo foi inspirado em Shakespeare, mas existem milhares e milhares de romeus e julietas por aí pela vida, talvez não ao ponto de cometer um suicídio, mas que sofrem por amor”, conta o roteirista.

A obra original de Shakespeare é considerada como o arquétipo do amor juvenil, arrematando esse público. O que explica, talvez, os semblantes ainda jovens que compunha a maior parte da platéia. Em cena, atores igualmente jovens. Com apenas 16 anos, Mariana Vila Boas, arrancou aplausos pela sua atuação.  A jovem atriz está cursando o terceiro ano do segundo grau, segundo a própria, o pior ano do colégio, dividindo-se entre ensaios e estudo. “É um processo meio conturbado, mas é isso, foco no colégio e a arte vêm só como complemento pra fechar essa coisa fantástica”, afirma sorrindo.

Um espetáculo de luzes

Atores em palco, luz e som. A peça apresentada pela Cia de teatro espírita Artesseência, dispensa cenário, a iluminação tem significado especial na trama e vem a compensar essa falta.  A concepção de luz do espetáculo trabalha com a ideia de não ter espaço definido cenicamente porque tenta reproduzir, durante todo o tempo, os momentos psicológicos dos personagens. Marcus Socco, responsável pelo jogo de luzes, explica, “dentro da doutrina espirita há uma lei de afinidade psicofísica, então o que pensamos cria os ambientes, a ideia é brincar com essas cores, com esses âmbitos diferentes, que dá a sensação de lusco-fusco, sombra e luz o tempo todo. A ideia primordial é chegar a esse ponto psicológico dentro suposto cenário da criação de cada personagem em nosso trabalho”.

No do projeto Verão Cênico 2011/2012 a Cia de teatro espírita foi selecionada para duas apresentações, uma em Feira de Santana e outra em Vitória da Conquista. Para além disso, já levaram peça para a cidade de Salvador e Alagoinhas.  "a cada lugar  que chegamos é um experiencia diferente, tem a questão do equipamento, da resposta do público.Tentamos criar sensações, impacto, não sei se consigo chegar a esse ponto sempre, ao ponto de vista de quem assiste. Eu fico particularmente curioso em saber como as pessoas acham, pensam, sentem”, Marcus conta.

Deixei-me seduzir pela atuação da jovem Julieta e seus companheiros de peça, que apesar de visivelmente nervosos, ganharam não só a mim, como o público em geral. O jogo de luzes veio catalisar essa levada de amor juvenil em mim, e o reencontro do Romeu e Julieta no pavilhão da reencarnação, me arrancou lágrimas. Após quarenta minutos de show de atuação e iluminação, respondemos de pé o questionamento de Marcus Socco, aplaudindo calorosamente.

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