quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Diário de Bordo Carnavalesco: Eu Digo que ela é Gostosa

Por Mariana Kaoos

Foto: Rafael Flores

Alô alô rebuceteiros, galera do desbunde, da vanguarda e da alegria em geral. Carnaval passou por aí? Por aqui, em Salvador, ele veio com tudo e ainda deixou gosto de quero mais. Como já dizia Torquato Neto em 1972, na sua coluna Geleia Geral, o carnaval foi na Bahia e quem não veio, perdeu. Agora, só no próximo ano… se o Calendário Maia nos deixar viver mais um. Agora é juntar tempo, tênis e protetor para aguentar o calor da capital, preservar um pouco a voz e decorar um monte de poesia para recitar diante das belezas que a festa proporciona.

Para ser feliz você não precisa estar no ar com a “globeleza”. Ser feliz é algo além do que se prostrar diante de uma televisão vendo o carnaval passar. Ser feliz, aliás, não tem necessariamente, nada a ver com o carnaval. Mas se no próximo ano ocorrer uma tentativa, prepare a barriga para o churrasquinho de gato, o bolso para comprar quatro piriguetes, a R$5,00 e, de preferência, entregar a latinha pros catadores assim que terminar de beber. E saia da caretice.


Carnaval em Salvador foi muito mais que ver Chiclete cantando "você é mega, você é dez" ou as coxas de Ivete Sangalo. Carnaval em Salvador foi e vai muito além da discrepância entre o luxo dos camarotes e a dificuldade dos cordeiros que trabalham pra gente se divertir. Quisera tentar ser feliz no carnaval? Eu indicaria o Trio do Boca, no Campo Grande que, mesmo com quatro horas de atraso, contou com a presença da linda, maravilhosa e super acessível Tulipa Ruiz e do Guilherme Arantes. Entre um samba aqui e acolá, se ouvia pelo percurso do carnaval, músicas como "Meio Desligado", dos Mutantes, e “Que Beleza" do rei Tim Maia, mas baiano que é baiano tem "Deus no coração e o diabo no quadril" e sempre coloca as coisas do seu jeito. Para alegria geral, ou surpresa de Tulipa, foi possível observar casais e mais casais dançando arrocha ao som de Efêmera.

Pegando o pique, dava para descer a Ladeira da Barra correndo e acompanhar o trio de Moraes Moreira no Morro do Gato. E, mais uma vez, foi lindo. Se Moraes ficou dez anos sem participar do carnaval da Bahia por divergências de politicas de cultura, há três que ele voltou com tudo, acolhendo quem possa sorrir e queira dançar. A pipoca lotada contava com gente de todas as idades e todas as fantasias. A “gringarada” por sua vez, se soltou em musicas como “Maracatu Atômico” e “Chame Gente”. Esse ano, o disco Acabou Chorare completou quarenta anos e, não deixando passar seu aniversário, o apoteótico Moraes Moreira embalou todos ao som de Preta Pretinha, originando assim uma roda de ciranda (creiam vocês!) atrás do trio. E logo depois, seguindo com a musica “We are carnaval” – na qual ele diz que “baiano é um povo a mais de mil” –, meio que um feitiço desceu nos foliões, fazendo com que a maioria se beijasse e adorasse na hora, mas agora, devem estar se lamentando por conta do sapinho carnavalesco. Contradição, não?

Não! Contradição talvez seja ver Gerônimo cantar "o negro é a raiz da liberdade" no meio de um centro histórico que agora, com a chegada da Coral nas suas casas e vielas, tenta maquiar os anos de escravidão do lado de lá e os dias de crack dos anos de cá. Tintas frescas a parte, a baiana que vende seu acarajé com camarão a R$5,00 e que concorre com queijo assado, cerveja, beiju e maniçoba, dançava com um sorriso no rosto quando a bandinha "Não deixe o samba morrer" passou ao redor do Terreiro de Jesus. A noite no Pelô se fez clara tamanho brilho no olhar e nas fantasias dos presentes. Lá, preto, branco e ruivo dançaram juntos e meio que contradizendo as cordas e o espirito de segregação social, o Pelourinho se apresentou como o local mais democrático do carnaval da Bahia. 

Diz que tem capoeira e afoxé e tem. Diz que tem criança chorando com medo das caretas de carnaval e tem. Diz que tem japonês tocando percussão com roupas indígenas e tem. Diz que tem palco evangélico pregando a culpa da "festa da carne" e tem também. Pra quem gosta do gingado do Ilê, na Praça da Sé começavam os blocos. Já a antiga sede do Jornal A Tarde, que agora vai virar hotel de luxo, assistiu incrédula ao show de Magary Lord no palco montado na praça em que o poeta se eternizou. A Castro Alves que há muito tinha deixado de ser do povo pra virar do descaso, parece que, através da Secretaria de Cultura do Estado, está retomando seu brilho e até ele, apontando para a Baía de Todos os Santos, sentiu vontade de dançar o "joelho". 

Era noite. No cruzamento da Avenida Sete com a Carlos Gomes vem chegando Psirico do povão. Ou deveria dizer do arrastão? Ou do empurrão? Ou do apertão? As ruas do centro de Salvador decididamente não comportam mais a quantidade de pagodeiros que se juntam para, em fileiras e com dança própria, acompanhar a banda de Marcio Victor que, surpreendentemente, propõe algumas músicas belíssimas, como a de nome “Firme e Forte”. Perigoso? Perigoso é ficar em casa com medo da vida. Quem nunca se aventurou em passar por um bloco de pagode numa segunda de carnaval realmente não sabe o que é aperto e suadeira.

Como o carnaval não podia parar o caminho de volta foi pela Baixa do Sapateiro. Cantando Ary Barroso procurei, junto com Ib Oliveira, pela morena mais frajola da Bahia que não pôde me dar um beijo, nem um abraço e muito menos a sua mão, pois fugiu há muito pra bem longe de lá. Talvez tenha sido em decorrência do descaso dos poderes públicos com aquela área e principalmente com os moradores, ou, na melhor das hipóteses, talvez ela também tenha ido pular carnaval. 

A próxima parada era novamente circuito Barra/Ondina, que numa sequencia ininterrupta iria oferecer de uma só vez Armandinho, Dodô e Osmar, Carlinhos Brown e o Camarote Andante, Timbalada e por fim Margaret Menezes e o projeto Afro Pop. É nessas horas, com o álcool na cabeça e a alegria no pé que você tem que realmente fazer escolhas. Escolhas essas que podem mudar todo o seu carnaval, carnaval esse que pode mudar toda a sua vida. Como esperado, Armandinho foi a bola da vez. Com sua guitarra elétrica esquentando ainda mais a festa dos foliões, a poeira subiu, o sorriso se espalhou e a cerveja começou a cair como chuva das mãos dos desbundados que rodavam com ela sem parar. “Zanzibar” chamou a multidão, mas foi mesmo com “Chão da Praça”, logo no fim do percurso, que a galera foi a loucura. 

Como ninguém é de ferro e nem vive só de folia, acompanhar Armandinho tá de bom tamanho para quem quer se guardar um pouquinho e conta com mais possibilidades no outro dia. E elas existiram mesmo? Terça feira de carnaval, Salvador chegando perto dos 32°, a televisão com seu ar de desesperança só mostrava Leo Santana (Parangolé) descendo até o chão com Ivete no Campo Grande. Pera aí, “que é que é isso?”, mas, como em cada esquina da cidade pode ocorrer uma nova surpresa, as 15horas, com Iemanjá estonteante deixando as águas do mar reluzentes, contracenando com os guarda sois amarelos montados na praia, eis que surge na Barra o Trio do Boca, com Paulinho Boca de Cantor, Zeca Baleiro e Karina maravilhosa Buhr. A festa novamente estava salva. 

A pipoca, totalmente desconhecida até então, permanecia junta de um só lado do trio jogando confetes e serpentinas uns nos outros. A educação, por incrível que pareça, era valor chave quando aconteciam empurrões ou pisadas no pé. Zeca embalou a todos com seu samba do “Aproach” e a estonteante (não me canso de falar) Karina Buhr estourou muito “Plástico Bolha” com todo mundo que estava lá. Talvez, o ponto alto da tarde foi quando Paulinho, junto com Pedro Baby (filho de Pepeu Gomes e Baby do Brasil) na guitarra homenageou os Novos Baianos com “Mistério do Planeta”. O sol já tinha abaixado, uma forte brisa bateu na avenida e todos ao mesmo tempo levantaram os braços para homenagear a banda que outrora sacudiu muitos carnavais. 

Naquele momento era chegada minha hora. No que sigo meu caminho, trouxe comigo o brilho de alguns olhares que guardo em segredo. Os nomes, desses não preciso, já que poderiam ser resumidos em amor. Pra quem não foi, fica quem sabe a provocação de se aventurar. Para mim, com as pernas doendo em plena quarta-feira de cinzas, surge o eco de Caetano Veloso que, ao se referir a vida em si, brada aos quatro ventos: “eu digo que ela é gostosa, eu digo que ela é gostosa”.

5 comentários:

  1. Parabéns!!!!!!!!! Belo texto, gostosa experiência e primoroso olhar sobre o carnaval soteropolitano!!! Beijo, Dusty.

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  2. Não conhecia o Rebucete, mas depois de conhecer através da galera que vai fazer a cobertura do Grito Rock, estou conhecendo... muito bom, estão de parabéns!

    Acesse: www.uniaoperfeita.com

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  3. Que maravilha! Esse sim é o nosso carnaval.

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  4. Nada como a vida para nos mostrar seu verdadeiro sentido de alegria e prazer!!!
    Continue a trilhar este caminho de ser Feliz!

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